Dos meus tempo de menino
Recordo-me dos vaga-lumes
Encantava-me a dança das luzes entre os galhos das árvores
Recordo-me das brincadeiras no terreiro
Das fogueiras de São João
Das histórias do meu avô
Recordo-me das brincadeiras na rua em frente de casa
Das arapucas que fazíamos para pegar passarinhos
(depois soltávamos)
Dos carros de boi feitos da palma
(quem é da caatinga saberá bem o que é palma)
Os bodes circulando pelas ruas, em dia de feira
Os cantadores de repente
As brincadeiras de rimas com meu pai
Os jogos de tabuleiro
Cuscuz com leite
Do meu tempo de menino
Procuro esquecer as surras levadas
Os dias em que ficava só em casa
Aquela cacharrel lilás que usava nos dias frios
Aquela calça também lilás feita de uma roupa desmanchada de minha mãe
Procuro esquecer o abandono do meu pai
As tristezas (e lágrimas) de minha mãe
As noites mal dormidas
A morte de meu avô
A falta de registro de como eu era nos meus tempos de menino
Procuro esquecer a doença que me abateu
A violência com meu corpo
A falta de piedade com minhas dores
A demora em caminhar
A morte de minha irmã mais velha, ainda menina
A falta de ter uma foto dela
Ou minha
Do meu tempo de menino
Recordo-me mesmo
é do brilho dos vaga-lumes
Entre os galhos das árvores
Do meu tempo de menino
Trago coisas que procuro esquecer
Trago também lembranças
E os vaga-lumes
Que cismam em brilhar
nos galhos que povoam
minhas lembranças
CARPE DIEM

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