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terça-feira, 5 de março de 2013

Mulheres - Eva (Capítulo I)


“Quantas coisas eu já enfrentei. A vida é um eterno lutar!” Este era o pensamento que visitava Eva, naquela tarde de final de verão. Em sua cadeira de balanço, apreciando mais um por do sol deslumbrante, na varanda daquela casa repleta de histórias.

Eva percebeu mais uma vez, que estava entrando no seu período nostálgico, como costumava chamar os dias que antecediam o primeiro final de semana de março. Por várias razões – sendo uma das principais o dia em que se casara com Otávio – ela escolhera este período para reunir sua família, hoje espalhada pelo Brasil.

“Como seria bom se ele ainda estivesse aqui!” – Pensou ela, quando se lembrou das razões de seu período nostálgico. Este pensamento não a deixava triste. Houve um tempo que sim. Hoje, não mais! O tempo nos ensina sobre as chegadas e partidas.

Eva era uma mulher batalhadora. Tivera 10 filhos. Destes, 7 “vingaram”, como costumava se dizer naquela época. Poucas mulheres naquela Trazia na face, as rugas que deixavam claro que sua vida não fora fácil. Sua boa memória, sua vitalidade e sua firmeza escondiam bem os 94 anos, que as rugas teimavam em mostrar. “Somos o que acreditamos ser e não o que aparentamos”, dizia sempre ela. Por isso ela orientava seus filhos desde pequenos para que jamais cultivassem maus pensamentos ou comportamentos.  Fez isso também com os netos e bisnetos.

Com a morte de Otávio, há mais de vinte anos, ela se tornara a grande líder daquela grande família. Eram sete filhos, sendo quatro mulheres e três homens, vinte e um netos e onze bisnetos. Ela tinha orgulho de contar como ela e Otávio batalharam no início para criarem os filhos. Ele na lavoura e ela como professora. Todos os anos, com a família em volta da matriarca, talvez com o intuito de reforçar os seus valores, ela narrava suas memórias:

Otávio era um marido moderno. Eu era uma das poucas mulheres casadas que trabalhavam na nossa cidade. Naquele tempo, era uma vergonha para o homem permitir ou precisar que sua mulher trabalhasse para manter uma casa. Sem contar que as mulheres que lutavam por liberdade e igualdade de direitos eram mal vistas pela sociedade. Eu não era adepta destes movimentos, por que não me via hostilizada ou sufocada por meu esposo.

Era um tempo em que os filhos mais velhos ajudavam a cuidar dos menores. A Tereza, na época com 11 para 12 anos era quem nos ajudava a cuidar dos outros três. De manhã ela estudava no Grupo Escolar e quando chegava eu saía para dar aula no mesmo Grupo em que ela estudava. Era sempre assim. Eu deixava a casa organizada, a comida pronta e as tarefas para Tereza.

No inicio da década de 40, com a segunda Guerra em pleno curso na Europa, as coisas estavam difíceis por aqui.  Estávamos em plena Era Vargas, um misto de democracia e ditadura. Se por um lado crescíamos como país, por outro éramos sufocados pela mão pesada do Estado. 

Trabalhávamos muito, eu e Otávio. E aos poucos prosperamos, compramos um pequeno sítio, que logo virou uma pequena fazenda e finalmente começamos a trabalhar na nossa própria lavoura. Com a chegada de mais dois filhos, totalizando cinco na época, parei de lecionar e comecei a apoiar Otávio nas tarefas da fazenda. Enquanto ele conduzia os trabalhos no campo, eu cuidava da burocracia e do comércio. Logo percebemos que eu tinha vocação para negociar nossa produção. Otávio dizia brincando que tinha até medo de estar do outro lado, quando se travada de mim, numa negociação. Eu era uma das poucas mulheres que fazia negócios com homens. Eles estranharam no começo, e aos poucos, foram se acostumando com isso.

O restante da história vocês sabem. Acompanharam à medida que cresciam a nossa volta. Creio que fizemos um bom trabalho e que graças ao meu envolvimento no dia-a-dia de Otávio, consegui cuidar de tudo, mesmo sem ele. Sim! Otávio foi um excelente parceiro!

Naquela família todos a admirava. Porém o brilho nos olhos das filhas, netas e bisnetas deixava claro o quanto Eva era querida e o quanto elas tinham orgulho de serem frutos de Eva. Embora, ouvissem todos os anos a mesma história, elas terminavam sempre fascinadas com a vitalidade daquela mulher quase centenária.

Carpe Diem

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Grande Viagem!

Naquela noite, a lua crescente brilhava. Estrelas eram como pontinhos prateados piscando num céu limpo. A sensação agradável do vento beijando a nossa face tornava aquela noite muito propícia para uma boa caminhada. O vento, o brilho da Lua, as estrelas, o céu limpo, a temperatura agradável deixavam claro, que aquela noite, era uma noite perfeita para uma grande viagem.


Sabíamos que aquele momento se aproximava. Sabíamos que ele tinha seus planos e claro que escolheria a melhor hora, a melhor noite, o melhor momento para partir.

Viajar é sempre bom e excitante. A emoção começa na arrumação das malas. O que levar? O que deixar? Escolhas. Sempre escolhas. Cabe na mala tudo que é nosso, tudo que nos foi dado, tudo que será útil. Deixamos pra traz aquilo que não nos pertence, que não nos será útil, que nos é pesado.

Ele já vinha preparando sua bagagem ao longo destes mais de 70 anos de planejamento. Sabia que era uma viagem longa e que seria muito importante estar preparado. Era nítido o esmero que dedicava a cada coisa que colocava em sua mala. Era evidente que sabia que precisaria fazer escolhas. A mala tinha sua limitação de espaço. Alguns descartes seriam mais que necessários, para que ele levasse consigo apenas o essencial.

Na mala ele dobrou cuidadosamente um tanto de paciência, algumas peças de serenidade, de alegria, outras de solidariedade e uma boa quantidade de perseverança, por fim deixou reservado um espaço maior para o amor e gratidão. Na hora de acondicionar tantas coisas, resolveu que não valeria à pena transportar tristezas, rancores e mágoas. Não caberiam também orgulho e vaidade. Preferiu trocar estas coisas por humildade e coragem. Seriam mais úteis ao longo de sua nova jornada. Tinha plena certeza que seria fundamental levar muita consigo e resignação também. Há coisas na vida que só com muita resignação para entendê-las.

De malas prontas, faltava marcar o dia e o horário da Grande Viagem. Precisava despedir-se das pessoas queridas e seguir, sem olhar para trás, sua nova jornada.

Foi assim. Ao longo de alguns meses, foi preparando cuidadosamente a sua despedida. Aos poucos ele foi abraçando e envolvendo aqueles que fizeram parte de sua jornada. Depois de uma ausência de uns 30 dias, ele retorna para celebrar o Natal, com sua família, saudar o novo ano que chegaria cheio de novidades e emoções. Resolveu apenas que não esperaria seu aniversário daquele ano. Melhor não. Não seria prudente adiar tanto sua ida. E resolveu assim.

Ao lado de todas as pessoas que o amavam. Que eram amadas por ele. As 22 horas e 22 minutos, do dia 19 de janeiro de 2013, chega o transporte especial e com sua bagagem muito bem organizada, ele adentra o veículo e segue, sem olhar para trás. Segue com a certeza de que está levando tudo o que precisa, que deixou as coisas inúteis para trás e que para cada pessoa que tanto ama, deixou muitas lições, amor, coragem e fé. Ele partiu, por que sabia que seus alunos estavam prontos para seguirem seus caminhos, sem os cuidados constantes dele.

Agora, era a sua vez de aprender e praticar. Numa nova escola. Num novo mundo.

Feliz Grande Viagem!

(Homenagem ao nosso pai e amigo Orlando Losso)

CARPE DIEM

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Trilogia de Natal: III - Nasce uma família!


“Papai do Céu, hoje é um dia muito importante na minha vida. Queria muito que essa família que virá conhecer o Lar seja abençoada e tocada por você. Que ela goste de algum de nós, que nos ache legal e que também  sejamos feliz perto dela. Papai do Céu, eu sei que este ano vieram muitas pessoas aqui e nunca me escolheram. Alguns dos meus amigos tiveram um pouco mais sorte do que eu.Outros esperam como eu. Mas eu queria que soubesse que sempre acreditei em você e que nesta manhã tudo será diferente. Amém”

Paulo era um menino maduro, para os seus oito anos. Foi com essa oração que ele levantou de sua cama e com muita esperança de que seu sonho se realizasse. Aquela era uma manhã diferente. Seria o último dia de visitas, antes do Natal. Algumas famílias se fariam presentes no abrigo. Nem todas para procurarem um filho. Muitas eram voluntárias de Natal. Faziam as vezes de padrinhos. 

Ele mesmo tinha um casal de padrinhos muito legal. Seu Joaquim e Dona Maria, um casal de velhinhos que tinha filhos e netos que moravam em outro país. Solitários, ambos encontraram no abrigo, a alegria de compartilhar o amor que tinham. Acabaram se apegando a Paulo. Só não o adotaram por que o juizado considerou a idade deles avançada para serem pais. Mas ficaram amigos e tornaram-se padrinhos. Paulo os chamava de “Vô Quim” e “Vó Maria”. Eles gostavam de serem considerados assim. Sempre que podiam, visitavam Paulo e contavam boas histórias para o pequeno, que ficava maravilhado com tantas coisas que “Vô Quim” conhecia sobre o mundo.

“Hoje será um dia muito especial para nós. Iremos, pela última vez neste ano, conhecer um visitar um lar de crianças e desejamos Pai Amado, conhecer nosso filho nele. Sabemos que muitos abrigos, lares e instituições foram visitados este ano. Que ainda não sentimos o amor que precisamos sentir por nenhuma criança que visitamos, mas acreditamos que hoje será diferente. Por isso, esperamos Pai Amado, que saibamos discernir e sentir o nosso filho hoje. Que Assim Seja!”

Foi com essa prece que José Luiz e Maria Clara terminaram seu café da manhã. De mãos dadas e olhos fechados, era visível a emoção que tomava conta daquela mesa. Uma lágrima amorosa desceu pela face de Maria Clara. José Luiz enxugou-a com as com uma carícia suave. Enquanto sua mão deslizava pelo rosto de Maria Clara, ele disse:

- Sinto algo diferente hoje, Maria. Temos que estar sintonizados e atentos aos sinais de nosso Pai Amado. Nossa longa espera termina hoje.

- Que assim seja José. Que assim seja! –Respondeu ainda chorosa, Maria Clara.
O Lar que fora indicado pelos agentes de adoção ficava há alguns quilômetros da cidade em que viviam. Uma pequena cidade da região. Não era tão longe. A demora em chegar tinha muito mais a ver com a ansiedade deles do que com a distância geográfica que os separava do destino.

“Lar Crianças de Luz”, ambos leram na placa. Entreolharam-se e riram com nome tão sugestivo. Sim. Só poderiam ter crianças iluminadas naquele pequeno lar. Foram recebidos, na entrada da Casa, por Dona Madalena (Mãe Madá, como pediu para ser chamada), que deu as primeiras instruções e preparou o casal para a visita.

- Meus queridos, aqui é um Lar que há muito tempo abriga crianças. Temos uma proposta diferente e lidamos com crianças maiores. Aquelas que desafortunadamente, passam do “melhor tempo” para serem adotadas. Aqui, valorizamos suas qualidades, elevamos sua auto-estima e sim, vivemos como uma grande família. Essas crianças, meus queridos, já tiveram muitos dissabores e decepções, para viverem num mundo, onde o amor não seja possível.  Diria a ambos, que são crianças especiais e de luz. O nome da casa não por acaso. Fomos intuídos para escolhê-lo. Por isso, peço que sejam amorosos e tratem todos com muito amor e respeito. Se o filho de vocês estiver entre nós, saberemos.

Ouviram em silêncio, apenas assentindo com a cabeça. Logo estavam passeando pela casa. Eram vários ambientes. Oficina de Artes, Comida com arte, Sala de jogos, Briquedoteca, Biblioteca, Sala do Sono, Sala do Aprendizado e o Pátio das Brincadeiras! Naquela manhã, a movimentação no Pátio era grande. Os padrinhos estavam distribuindo presentes aos seus afilhados do coração e a criançada estava eufórica.

Numa das últimas mesas do Pátio das Brincadeiras, estavam um casal de velhinhos e um menino conversando alegremente. Ele ria e o homem contava alguma história que causava este riso no menino. Aquele garoto era um dos maiores do Pátio. Maria Clara olhou para José Antonio, que como que se pressentisse o que ela queria falar, responde:

- Amor! Combinamos que queríamos uma criança um pouco mais nova. Abrimos mão de buscarmos apenas recém nascidos, porém limitamos a idade, lembra? Como conseguiremos educar uma criança mais madura, meu anjo? Todos nos alertam que é mais desafiador, que vem com vícios de comportamento e que podem ser um problema em casa.

- Eu não disse nada José. Ele é especial. Veja como sorri. Vamos conhecê-lo. Sei que nos indicaram outra criança deste abrigo. Sei que a outra está dentro do que buscamos como “padrão de idade”. – Ela disse as palavras finais, com ênfase e José Luiz sabia que quando ela fazia isso, era para provocá-lo, em seus padrões.

À medida que conversavam, caminhavam quase instintivamente em direção ao trio animado. Mãe Madá sabia o que estava acontecendo e diminuiu o passo. Sem que percebessem deixou-os a sós. Em poucos segundos, lá estavam. Maria Clara e José Luiz, bem diante da mesa do trio. “Vô Quim” olhou para o casal e convidou-os para juntarem-se a eles:

- Meus filhos, sentem-se conosco. Há mais uma cadeira logo ali. Pegue pra sua esposa, meu filho. Juntem-se a nós e escute essa que vou contar pro Paulo. Essa é uma boa história! Desculpe-me a falta de educação. Sou Joaquim, “Vô Quim” como o Paulo me chama. Esta é minha esposa “Vó Maria” e este é Paulo, nosso neto e afilhado.

- Muito prazer – respondeu o casal em coro – Pensava que aqui era um lar de crianças que não tinham mais família por perto. Que bom que Paulo tem avós tão queridos. Ah! Que cabeça a minha. Somos Maria Clara e José Luiz – completou Maria Clara, enquanto José buscava mais uma cadeira para juntar-se ao grupo.

- Mas é Maria Clara. Somos padrinhos e avós do coração do Paulo. Desde que ele chegou aqui, que assumimos esta missão tão querida.

Paulo observava aquele casal e uma emoção diferente começou a tomar conta do seu coraçãozinho. Mal falava, observando o casal, enquanto ouvia mais uma história do seu avô. Pela primeira vez, estava desatendo. A voz de “Vo Quim” estava distante e apenas aquela mulher e aquele homem brincavam na sua mente infantil. São eles, pensou e chegou a sussurrar enquanto pensava.

- São eles o que, meu querido? – Provocou “Vó Maria”, a única a perceber o breve sussurro e já pressentindo o que se passava.

Naquela manhã, os cinco não se desgrudaram. Paulo apresentou todos os espaços. Sempre de mão dada com “Vô Quim” e falou de tudo que vivera em cada lugar. Era ele o contador de histórias naquele momento. Falou de coisas que nunca falara com ninguém. Falou de como chegou naquela casa, de quanto sofreu com seus pais que bebiam muito, de como sentia-se triste quando algum amigo chorava por sentir-se rejeitado por algum casal. Falou de como o lar era acolhedor e como Mãe Madá era generosa e brava também, quando eles aprontavam. Falara rindo sobre a braveza de Mãe Madá.

- Ah! Meu Filho! Que história linda essa sua. – Respondeu automaticamente quando Paulo concluiu toda sua história e apresentação do lar. – Você tem quantos anos Paulo?

- Ah! Tia Maria Clara! Sou bem velho! Já tenho 08 anos. – Respondeu Paulo com um riso largo no rosto
.
- Posso lhe dar um abraço, Paulo? – Disse Maria Clara, já com os braços abertos e prontos para abraçá-lo. Nem esperou resposta e envolveu o garoto em seus braços.

Ali ajoelhada, sentiu um amor incrível tomar conta do seu corpo e de seus olhos verteram lágrimas amorosas. Com Paulo envolvido em seu abraço olhou para José Luiz, que tinha os olhos marejados e como se convidado tomou parte daquele abraço. Agora em três chorosos num abraço. Paulo sem entender muito a razão, começou a sentir seus olhos molhados e começou a abraçar mais forte Maria Clara, enquanto chorava silenciosamente. Em pé, “Vô Quim” e “Vó Maria” abraçaram-se, enquanto observavam aquela cena tão bela e nem precisaram trocar palavras. Paulo tinha um lar, finalmente.

- Filho querido! Vamos para casa? Você concorda José? Você está sentindo isso? – Disse Maria Clara, emocionada e com voz de súplica.

- Paulo, meu querido, você quer ser nosso filho? Quer conhecer nossa casa? – Falou José Luiz, dirigindo-se a Paulo. Claro que ele já concordava com Maria Clara. Queria saber se Paulo os queria como pais.

O abraço de Paulo serviu como uma resposta positiva. Alguns dias se passaram. Período de adaptação, visitas da Assistente Social, burocracias, controles e muitas expectativas.

A alegria que Paulo sentiu a ver-se em seu próprio quarto, ou na mesa de café com seus pais, ou no quintal brincando com seus novos amigos e primos não caberia em papel ou tela alguma. Era dele. Estava dentro dele. José, Maria e Paulo finalmente tinham uma família.

E foram gratos por isso.

CARPE DIEM

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Trilogia de Natal: I - Nasce um sonho

Paulo acordara agitado mais uma noite. Tinha sido assim nos seus últimos 4 ou 5 anos, nestes dias que antecediam ao Natal. Inexplicavelmente, ele sentia saudade de uma família que nunca teve. Ou pelo menos se teve, não se lembrava.

Com seus quase 8 anos, vivendo num lar para crianças, suas chances de ter uma nova família, segundo o pouco que sabia, eram quase zero.

Paulo chegara ao lar, aos dois anos de idade, vítima da violência alcoolizada de seus pais. Era um menino esperto e trazia no olhar um brilho especial. Em poucos dias cativou a todos no abrigo, com seu jeito sorridente e otimista. De vez em quando era pego pensativo num canto de parede ou em sua caminha. Mas era uma criança! E esta introspecção durava apenas alguns minutos.

Os anos se passaram. Paulo cumpria novos ciclos, novos rituais. Bolos, festinhas internas, abraços dos colegas de adoção, dos monitores, das cozinheiras e de todos que ali compartilhavam com ele, da mesma esperança. Ter um lar! Não que ali não fosse um lar. Era sim e com muito mais amor do que quando ele vivia na casa dele. Nunca mais tomara uma surra. Nunca mais fora xingado de inútil, de cruz ou de atraso de vida. Tudo era muito bom, porém faltava-lhe alguém para chamar de mãe, de pai, de irmão. Faltava-lhe avós! Faltava-lhe espaço.

Por muitas vezes, Paulo viu casais chegando no abrigo e logo percebeu que ser um bebê, de pele clara e sorridente facilitava muito encontrar um lar. Percebeu que quanto mais novinho e mais perfeitinho, mais rápido iria para casa. Aliás, ficava impressionado como estas crianças eram disputadas. Parecia aquelas taças dos campeonatos de futebol, que ele assistia na TV. Todo mundo queria!

Naquela noite, em que ele acordara atordoado pelo sonho de ter um pai, segurando sua mão, contemplando uma linda paisagem ele resolveu fazer um pedido. Apenas um. Não queria brinquedos, festas, Papai Noel ou coisa que o valha. Ele queria apenas uma coisa: Uma família!
"Papai do Céu! Meu nome é Paulo. Tenho quase 8 anos. O que vou lhe pedir eu sei que é quase impossível. Mas como sempre a Dona Veridiana diz que pra você nada é impossível, resolvi pedir neste Natal, uma família de presente. Eu prometo, Papai do Céu, ser um bom filho, ajudar nas tarefas de casa, ser amoroso com minha nova mamãe e serei grato a esta família que me acolher, dando o meu melhor e farei tudo para não dar trabalho para ninguém. Por isso, peço com todo minha força, me ajude a realizar este pedido e meu maior sonho. Amém!"

Como que envolvido por uma força bondosa, Paulo sentiu-se abraçado, tão logo terminou sua oração e voltou a deitar-se. Aos poucos o sono tranquilo tomou conta de seu corpinho esperançoso.

O resto da noite, em que dormiu, foi povoado por imagens belas, de sua família futura e sonhada. Viu-se brincando, passeando e abraçando sua mamãe. No seu sonho, ela era morena clara, pele bonita, cabelos negros e brilhosos e uns olhos, que mais pareciam os seus. No seu colo, ele deitado, sentia as mãos dela brincando nos seus cabelos, num cafuné gostoso e tranquilizador. No colo dela ele se viu adormecido. Foi neste colo que ele despertou logo cedo, ao toque do sino do abrigo e da presença amorosa da monitora Júlia, que sempre era a primeira pessoa que via, perto de sua cama.

- Bom dia, Paulo! Que cara boa! Estava num sonho bom, não é mesmo? - Disse Júlia, com voz suave e amorosa.

Paulo não respondeu. Apenas sorriu, ainda entorpecido pelo sonho bom...

CARPE DIEM

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ao mestre com carinho

Soneto
Ao Mestre com carinho

Na primeira leitura de uma criança
Os mistérios e os sonhos encantados
Descortina-se o saber com confiança
Quando alunos se sentem encorajados

No ensino vislumbro a esperança
De meninos aos  montes educados
Afinal, na palavra a grande herança
Transmitida por mestres dedicados

Guardião do saber e da  virtude
Nos ensina com exemplo e atitude
Uma bússola que indica o caminho

No ensino ele encontra a plenitude
Companheiro da nossa juventude
Um abraço ao mestre  com carinho

Um abraço de gratidão a cada professor deste país, que com muita dedicação enfrenta as dificuldades econômicas, estruturais e comportamentais. São eles, que enfrentam salas sem condições físicas e alunos descomprometidos, muitas vezes.

CARPE DIEM! 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Interesse - O primeiro passo

Mudar de casa, trabalho. Encarar um relacionamento do zero. Começar algo novo. Fazer algo diferente. Reinventar-se!

Pensar sobre estas coisas dá um certo frio na barriga, não é mesmo?

Somos por natureza, ligado à rotina. Ela, de certa forma, nos traz segurança. Nos orienta quando estamos no caminho certo. Logo, quando somos convidados a mudar algo em nossa rotina sentimos medo. Temos receio do que nos espera. Nada mais natural!

Existem mudanças que ocorrem contra as nossas expectativas e vontade. Já outras, escolhemos. Em ambas, convivemos com a incerteza de como será este novo.

E aí você me pergunta:  "O que faz o novo dar certo? ". Eu respondo: "Interesse!"

Quando temos interesse verdadeiro pelas coisas, por algo novo, por transformações tudo se encaixa e se resolve. A mudança começa com uma boa dose de interesse. Fé interior ajuda muito. Fé em si mesmo e numa força maior que rege o universo.

Com interesse nós neutralizamos os "sabotadores internos" de mudança. Sabe, aquele pensamento negativo? Aquela insegurança? Aquela falta de vontade de começar o novo? Pois é! São os tais "sabotadores internos" de mudança.

Com interesse estudamos mais, mudamos hábitos, criamos vínculos com pessoas que possam nos ajudar, aprendemos algo novo, enfim, nos movimentamos.

Com interesse aquele projeto que estava engavetado vira realidade.

Para começar algo novo, talvez você precise de muitas coisas, talvez você tenha muitas desculpas (sabotadores internos). É provável que uma barreira enorme se forme entre você e o novo. Só você sabe! Agora, de uma coisa eu tenho certeza. Por mais que você precise dos mais variados recursos internos e externos, algo sempre será essencial na sua transformação: O interesse!

Sendo assim, que tal se interessar um pouco mais por seus sonhos e objetivos e colocá-los em prática! Fica a dica!

CARPE DIEM

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Quando o novo bate à sua porta

Toc! Toc!

- Quem é? – pergunta você, curioso!

- É o novo, querendo entrar! – Responde uma voz que vem lá de fora

- Seja bem vindo! – Responde você , com certo medo

A vida é assim. Quando você menos espera, o novo bate à sua porta. Você fica naquele misto de deixo ou não deixo entrar. O que será que vem junto com o novo? 

Desafios, riscos, alegrias, incertezas e uma boa dose de medo. Um turbilhão de sensações o acompanha com a chegada do novo. O melhor mesmo é estarmos sempre preparados. Quando estamos acomodados, devidamente relaxados em nossa rotina, sentimo-nos seguro. Afinal, basta fazer o que sempre fizemos, estar onde sempre estivemos e pronto. Nada de mal nos acontecerá. Correto?

Ledo engano. Paradigmas nos cegam. Hábitos envelhecidos nos levam juntos e quando menos percebemos, ficamos para trás. 

“Então, tenho que mudar a toda hora?” - Me pergunta você. 

“Quando necessário, sim!” - Respondo eu.

“E quando eu devo atender ao chamado do novo. Quando devo abrir a porta?”  - Me pergunta mais uma vez.

“Quando você sentir que está pronto. Interessante que você nunca saberá. Porém, sempre sentirá” - Respondo finalmente.

Evite que o medo lhe domine. Que a mesmice lhe deixe acomodado e que a vida passe ao seu lado, sem que você embarque de cabeça, nela.

O novo bateu à minha porta. Eu abri. Seguro totalmente? Claro que não! E isso é muito bom! Segurança demais, atrapalha.

Que o novo seja sempre bem recebido por cada um de vocês!

CARPE DIEM

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O poeta e suas palavras

Era uma vez um poeta. Não era um daqueles poetas famosos. Daqueles que escrevem poemas inesquecíveis e emocionantes. Era um poeta comum. Gostava dos seus próprios versos. Do som das sílabas que construía e divertia-se com a graça que a rima fazia. Se tinha uma coisa que esse poeta gostava era do ritmo que a métrica oferecia as suas linhas singelas. Era uma vez um poeta.

Tudo ia muito bem... Até que um dia, algo estranho aconteceu. Estranho não! Incrível! Aquele poeta, por descuido havia se perdido de suas palavras. De repente ele se vira só. Sem elas!

Atônito ele procurava em todos os cantos de sua casa. Procurou refazer o caminho que fizera. Passo por passo. Nem sinal das palavras. Se bem que no começo ele até sentiu-se aliviado. Afinal, as vezes, as palavras o sufocava. Exatamente! Eram tantas palavras que invadiam seus pensamentos, todas afoitas para serem grafadas num papel qualquer que até lhe causa desespero. 
E quando as palavras resolviam exibir-se? Lá ia poeta desesperado atrás de um pedaço de papel. Pedaços de guardanapos, papel toalha, cantinho de jornal, rascunho, tecido. Qualquer coisa servia para a palavra se expressar.

Nem queira Imaginar como o poeta ficava quando ele não encontrava recursos  para expor as palavras rebeldes. Elas ficavam ecoando na cabeça dele. Zanzando de lá para cá. Até que se acalmavam. Demorava. Fato!

Foi assim, sem mais nem menos, entre palavras expressas e palavras sufocadas que tudo se perdeu. As palavras resolveram deixar aquele poeta. Não me pergunte se a decisão tomada havia sido para sempre. Não saberia explicar. A verdade é que o poeta estava desnorteado.

Era doloroso sentir emoções que não tinham mais palavras para traduzi-las. Desejos perderam completamente o sentido. Ele até percebia a beleza das flores, das pessoas, dos bichos soltos, dos pássaros no ar. Só que tudo para ele era sem nome. Sabia o que era, mas não conseguia expressar um nada.

O poeta procurou deixar de perceber as coisas ao seu redor. Poderia ser uma saída. Se ele nada sentisse, nada visse, por nada se interessasse, poderia ser que as palavras não fizessem tanta falta assim. Deu certo uma vez, duas, na terceira vez o desespero voltava com mais força.

Foi numa noite que o milagre aconteceu. Lá estava o poeta, noite enluarada, céu estrelado. No fundo, ele nem tinha mais esperança de rever suas palavras. Mirando a lua cheia relembrava dos versos que havia feito pra ela, certa vez. Uma lágrima teimou em escapar dos seus olhos. Escorreu por sua face. Saudade de suas palavras. Saudade do quanto elas emocionavam quando registradas por ele. Sem ser modesto ele sabia o quanto tinha o dom de combinar a palavra certa com o sentimento correspondente. Encaixe perfeito. Palavras....

E o poeta, depois de muito tempo expressa o que sentia naquele instante, diante da Lua cheia. Lá estava ela. como que servindo de testemunha daquele reencontro apaixonado: O poeta e suas palavras

Poesia é saudade transformada pela palavra
É desejo de expor o que se sente
É transformar o racional em sentimento
É expressar-se além da própria palavra

Poesia é traduzir o que não entende
É encontrar a palavra que comove
É alquimia da rima encantada
É a viagem infinita pela vida

Poesia depende da palavra
Que depende do dom de um poeta
Que transpira palavra por palavra

Como a  lua combina com a noite
E o pássaro é mais belo em pleno céu
A poesia ganha vida finalmente
Quando o poeta encontra-se com as palavras

E foram felizes para sempre: O poeta e suas palavras

CARPE DIEM


sábado, 14 de janeiro de 2012

Sair de cena

Em alguns momentos na vida precisamos sair de cena. Faz bem. Seja para realinhar as ideias antigas, seja para buscar novas ideias. Em algumas datas esse realinhamento é quase coletivo, como numa virada de um ano para o outro. Ou numa noite de Natal, para aqueles que congregam da mesma crença. Então, por natureza, vivemos acostumados aos ciclos.

Sair de cena muitas vezes é importante para se enxergar uma situação com maior isenção. 

Sair de cena também é importante para compreender um pouco mais de nós mesmos e do outro.

A escrita, para mim, é uma extensão da minha vida. Eu sou fascinado pela palavra e pelos significados que ela adquire a medida que a manipulamos. Encaixa-se uma palavra aqui, outra ali e uma frase nasce, com toda sua magia e encanto. 

Por isso saí de cena, por um período, a palavra me fascinava tanto, que quase me perdi dentro dela. Hoje estou aqui. A palavra também. Que sejamos felizes...

Até o próximo fim de um ciclo...

É bom estar de volta... sempre é bom!

CARPE DIEM 

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Passo a passo...

A vida se vive um passo por vez.
...
É importante acreditar que a cada passo dado rumo ao seu futuro, mais próximo da paz você está.
... 
À medida que você caminha, algumas coisas ficam no passado, deixam marcas, tal qual seus passos já dados. 
...
Você pode tanto fugir de algo que o assusta, como ir de encontro ao que lhe traz a plenitude.  Agora ficam algumas perguntas?
...
E o que nos assusta muitas vezes não é justamente o que nos traz plenitude?
...
Quais marcas do passado são mais fortes? Aquelas de coisas deixadas ou a de seus próprios pés, no caminho?
...
Na verdade mais importante que a velocidade com que caminhamos é a certeza dos passos dados.
...
Os passos de crianças são mais corajosos. Quem não se lembra como é o aprendizado de uma criança em contato com o mundo visto do alto de suas duas pernas. Imaginem a emoção do pequenino por ter conseguido o equilíbrio de segundos. Dois, três, quatro passos dados antes da queda!
...
Imagine aquela coragem, aquela emoção, aquela sensação única dos primeiros passos. 
...
Mais. Eu lhe convido a fechar os olhos, respirando fundo e pausadamente. Eu sugiro que antes, neste exercício de resgate, coloque uma música suave ao fundo. Será muito útil para fazer aflorar suas lembranças.
...
Ao som da música suave, com os olhos fechados e com a respiração ritmada eu lhe convido a trazer as lembranças dos seus primeiros passos. Deste momento especial da sua vida. Se possível, resgate-o. Traga-o para junto de você. Deixe que as lembranças boas lhe invada.
...
Lembrar destes primeiros passos fará com que você adquira mais coragem. Fará com que você se lembre que caminhar é uma dádiva. Lembrará que não caminhamos apenas com as pernas. Mas com o pensamento. Com a imaginação. Com o coração!
...
E à medida que você traz estas lembranças, provavelmente uma alegria invadirá seu peito e lhe dará a certeza de que os caminhos são seus e que cada passo dado rumo à sua felicidade, transforma-se na sua grande conquista.
...
E sim! Caminhar, passo a passo, vale à pena! 
...
E quando sentir-se pleno, completo desta experiência, vá tomando consciência de sua respiração, do seu corpo, do momento presente, abra os olhos devagar e aproveite essa sensação maravilhosa que trouxe consigo. 
...
Agora, levante-se e caminhe!
...
E como diria o poeta: é caminhando que se faz o caminho.
...
CARPE DIEM
Bons passos para você!

domingo, 15 de agosto de 2010

Como seria...(perguntas ao passado)

  • Você já parou para se perguntar como algumas coisas seriam na sua vida?
  • E se ao invés de ter cursado uma faculdade que tinha mais mercado, você tivesse seguido os seus sonhos?
  • Imaginou se naquele final de expediente, ao invés de calar-se, você resolvesse dizer o que sentia e sim, avisar aquele chefe que, quem nem não serve pra você é a empresa dele e não o contrário.
  • Como seria se você tivesse feito aquela viagem, adiada até hoje?
  • Você poderia ter tomado um banho de cachoeira, ao invés de ter medo da água fria...
  • Poderia ter andado de bicicleta, ao invés de ter medo de cair...
  • Você já pensou na prática, em colocar no papel aquela poesia toda, que vive aí dentro
  • Como seria se você tivesse aprendido a compartilhar o que sente, ao invés de ser uma fortaleza
  • Seria bom trocar um pouco de tanta objetividade da vida atual, por uma boa dose de ócio criativo
  • Você poderia sentir seus pés no chão fresco, ao invés de se preocupar com possíveis doenças e bactérias
  • Pensar que você poderia aproveitar mais das palavras ditas por seu pai e sua mãe, quando ainda eles existiam e você insistia em ignorá-los
  • Sim, imagine agora, você podendo dizer aquilo que sente, sem medo de fazer papel de ridículo, sem medo de um não da outra pessoa.
  • Imagine os beijos que você economizou, por falta de tempo ou por medo.
  • As pessoas que você se privou de conhecer, por preguiça ou por uma primeira má impressão. 
  • As palavras que você sufocou, por esperar o momento certo
  • Imagine o dinheiro acumulado, às custas de sonhos e realizações que ficaram para trás.Valeu à pena?
  • Como seria se você, ao invés de ter que manter um padrão de vida, uma aparência, pudesse ser quem você sempre foi. Simples, de roupas simples, viver com o básico, sem que ninguém o julgasse inferior.
  • Imagine que você nem fosse obrigado a sustentar uma aparência? Se você pudesse separar o SER do TER.
  • Imagine você viver a sua verdade. Não a dos outros. Não aquela propagada pelo publicidade, pelos filmes, novelas e tantos manipuladores de pessoas.
  • Imagine que você tivesse outras opções?
  • Imaginou tudo isso acima? Algumas coisas? Não importa! 
  • Agora o que importa mesmo é que sempre podemos Recomeçar
  • E tudo é possível. Tudo. Basta querer.
  • Passado. Presente. Futuro. 
"O impossível só existe para aquele que crê na impossibilidade." (Pearl Buck)
"Ninguém o avisou que não podia. Ele foi lá e fez!"

CARPE DIEM

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Vergonha (ou quando o tiro sai pela culatra...)




Houve um tempo em que os faltosos (criminosos) eram levados à exposição pública e apedrejados por seus "juízes" (leia-se, todos os demais do povoado). Era assim mesmo. Eles matavam o seu semelhante a pedradas. As vítimas destes julgamentos geralmente eram mulheres, devido seus desvios de conduta (?).
...
Em alguns países julgam-se as mulheres que traem seus maridos ou são abusadas e engravidam. Ela pode ser apedrejada também, porém uma das penas comum é o estupro coletivo, por exemplo.
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Violação do ser.
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Estamos no ano de 2009. Século XXI. Brasil. País de regime democrático. Em uma universidade, localizada numa das maiores metrópoles do mundo.
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Uma aluna é julgada ao apedrejamento verbal e tecnológico. Sim. As pedras foram substituidas, por insultos, flashes de celulares e camêras fotográficas.
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Imagine você ter à sua volta cerca de 700 colegas(?) bradando os insultos mais baixos, com suas câmeras e celulares em punho, tentando arrombarem portas, apenas por que você estava "provocante"?
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Imagine a tal universidade sendo pressionada por parte destes mesmos 700 "animais irracionais" que lá estudam(?) a expulsarem a tal aluna indecorosa(?), pois a mesma pode sujar o nome(?) da tal universade e prejudicar a formação e a carreira destes futuros profissionais(?).
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Eis aqui varios tiros saindo pela culatra:

  • Tiro 1: A tal universidade é particular e claro que precisa se manter economicamente e entre posicionar-se contra os quase 700 alunos e uma aluna que se vestiu de maneira inadequada(?) (segundo a opinião da tal universidade) ela opta pelo caminho mais simples. Pune a moça e dessa maneira tudo fica bem. Ledo engano!
    ...

  • Tiro 2: Por outro lado, a menina que resolve usar tais roupas inadequadas(?) tem a intenção de provocar, de fazer uma brincadeira, se de fato ocorreu o que dizem que ocorreu, claro. Ela perde o controle da situação. Se desespera e percebe onde tudo aquilo foi parar. Ela está errada por usar esta ou aquela roupa? Respondo eu. Não!
    ...

  • Tiro 3: Os alunos(?) que começaram o tumulto no fundo foram inconsequentes e com certeza jamais imaginaram que tal atitude tomasse tal proporção. Certamente não foi algo premeditado e a brincadeira, virou provocação, que virou agressão, que virou bárbarie.
Em relação a Universidade, ela deveria saber que quase sempre, quando optamos pelo caminho mais fácil sempre temos consequencias inesperadas. Isto é um fato. Sinceramente, essa "empresa" está muito mal servida de executivos "de decisão". Ou estava, por que provavelmente alguns perderam seus postos depois deste infeliz incidente.
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O mais incrível que não estamos falando aqui de um ambiente "bruto". Estamos falando de uma universidade. Centro de cultura, inclusão social, de desenvolvimento de pessoas. E pensem comigo. Se a direção de uma universidade toma tal atitude e o que podemos esperar de seus alunos? Observem que, pelo menos até agora, nada foi sequer noticiado contra os alunos que humilharam um ser humano. Nenhuma apuração. Nada. Remendaram a situação, revogando a expulsão da moça. Lamentável e vergonhoso.
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Quanto a moça, eu enxergo muito mais com uma questão cultural do que moral. É claro que cada um pode se vestir como quiser. Isto nem está em discussão. O fato é que existem convenções simples. Imagine que essa moça trabalhasse numa empresa e a direção da empresa a orientasse que tais vestimentas não eram adequadas ao cargo que ela ocupasse. Como ela se comportaria? E isso não tem nada  a ver com preconceito. Tem a ver com conduta e posição da empresa. Ou se ela fosse convidada para uma festa de casamento ou de gala, vestiria-se da mesma forma?
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A questão aqui nem é a moça, muito menos o que ela veste ou deixa de vestir. É o quanto as instituições estão desacreditadas e banalizadas. Afinal, são menos escandalosos(?) que essa moça os tais 700 alunos que de maneira vergonhasa e covarde a humilharam. Cada um destes 700 alunos deveriam refletir sobre o quanto eles podem esperar uns dos outros. O mais incrível é que no meio dessa "galera" tinham meninas, vestidas de minissaias participando do evento de "apedrejamento digital", mais inflamadas que os meninos.
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Devemos muitos destes acontecimento a essa cultura do sucesso fácil chamado reality show. Vemos mulheres e homens agindo de maneira vulgar em novelas brasileiras, filmes americanos, seriados, comerciais de TV, etc.
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É o sucesso fácil. É a banalização do corpo humano. É a transformação de uma pessoa em um objeto de desejo. Tudo isso faz com que uma moça aja dessa maneira, que uma massa se comporte como animais e que uma universidade se comporte como a "mãe inquisidora" da idade média.
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Não se pode generalizar. Agora, que tipo de profissionais essa universidade forma? Quais cidadãos ela entrega a sociedade? Algo me diz que muita coisa, numa empresa desta precisa ser revisto. A começar pelo respeito e conduta moral de sua direção para com seus alunos.
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Algo me diz que muito precisa ser feito em relação a estes tais alunos, que participam de um movimento como este. Falta muito discernimento a estes jovens. Muito mesmo.
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Pois é! As vezes acontece isso mesmo. O tiro sai pela culatra.
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Essa universidade sentiu isso na pele. SInto pelo fundador, pelo reitor atual, pelos alunos decentes, por essa moça, pelas familias destes alunos desequilibrados e alguns donos da verdade, por estes profissionais da universidade "cheios de pudor(?)" e desqualificados que orientam certas decisões.
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Jamais esta empresa será a mesma. Jamais estes alunos serão os mesmos. Hora de refletir e humildemente se redimir. Resignar-se não é covardia e sim encarar o que recebemos com dignidade.

Ressalto que ninguém julga ninguém e a intenção deste texto é simplesmente levar-nos a reflexão sobre os caminhos que estamos dando a nossa evolução. Que legado estamos deixando aos nossos jovens?


CARPE DIEM

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Era uma vez...


Ouvir essas palavras em um início de conversa traz tantas sensações, não é mesmo? Quando alguém começa uma história com essas palavrinhas mágicas é como se tudo fosse permitido, a partir dali.
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Nossas defesas são desarmadas e quando gostamos de uma boa história, nos preparamos para ouvir com toda atenção do mundo a narrativa daquela pessoa. Somos envolvidos pela magia das histórias encantadas, das lendas, dos causos, da prosa simples. E por falar nisso...
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Era uma vez, num reino muito distante, num cantinho de uma parede qualquer, uma vassoura de palha. Claro que não se tratava de uma vassoura de palha qualquer. Era a respeitadíssima  Vassourina. Famosa pelo cuidado e esmero com que mantinha sempre impecável o chão pelo qual passava.
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Contava com a ajuda da sua filha Pazina, a delicada pá, que carinhosamente e cuidadosamente recolhia e transportava em seu corpo todo o resultado da limpeza de mamãe Vassourina.
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A família de Vassourina e Pazina se completava totalmente com o grande e honrado Lixário, um nobre cesto de lixo, onde eram recolhidos e guardados, até o transporte final, todo os detritos recolhidos por Pazina e Vassourina.
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Tratava-se de uma família feliz e admirada naquele reino por todos os outros. Dona Janelina sempre de prosa com com Dona Portanália ressaltava o quanto eles se completavam. E isso era tão difícil e raro de encontrar naquele reino e exemplificavam:
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- Vejam o  Sr. Bacionildo! Ele e a Dona Tornerilda nunca entram em acordo. Ora ele sai antes e deixa a pobrezinha jorrando água à toa, ora é ela que derrama tanta água que transborda o coitado!


- E olha que a tarefa daquela família nem é das melhores! Ficar limpando a sujeira que as pessoas deixam por aí! - Lembra bem, Dona Janelina.
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- Também a vida deles é fácil. Quase nem tem tanta sujeira assim! Eu que sofro, com tanto entra e sai. De noite estou até com dor nas dobradiças! - retrucou com certa inveja a Dona Portanália.
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E um dia resolveram testar a união e paciência daquela família. Era uma tarde outono em que ventava muito.  Milhares de pequenas folhas espalhadas pelo campo formavam pequenos redemoinhos bailarinos. Dona Portánalia sugeriu:
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- Ei amiga! Vamos nos manter abertas durante essa ventania. Vai ser aquela bagunça por aqui. Certamente eles perderão a paciência! 
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Assim foi feito. Logo as salas e demais cômodos estavam repletos de folhas secas e poeira trazidas pelo vento.
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Dona Vassourina logo começou pacientemente seu trabalho, com toda dedicação e paciência de sempre. Aos poucos as salas foram sendo limpas. Logo perceberam que ela não desanimava e perceberam ainda que sempre estavam por perto, o Sr. Lixário e  Pazina.
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Ambos ficavam acompanhando e encorajando Vassourina na sua tarefa. Cantavam músicas que a estimulava a trabalhar contente. Diziam que ela estava indo muito bem e que ficasse tranquila, pois os dois estavam ali, prontos para recolher e armazenar todo o resultado de seu trabalho.
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E sempre que tinha uma grande pilha de folhas, Pazina pedia a mãe que descansasse um pouco e observasse como ela era ágil no recolher de folhas e como o papai era forte e espaçoso.
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Foram horas de trabalho duro. Dona Janelina e Dona Portánalia envergonhadas por terem provocado aquela bagunça toda e ao mesmo tempo admiradas com a maneira como aquela família encarava a dificuldade, aos poucos aprendia uma lição.
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Ao final do trabalho, embora cansados da jornada árdua, deram um grande abraço fraterno e agradeceram por terem uns aos outros. Agradeceram aos céus por terem capacidades diferentes, que quando juntas eram capazes de fazerem por completo suas tarefas. Cada um sozinho, de nada servia. porém unidos eram responsáveis por toda limpeza do reino.
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Dona Vassourina olhou nos olhos de Pazina e disse:
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- Muitos acham que somos os piores do reino, que vivemos na sujeira. Isso não é verdade minha filha. Eu, você e seu pai no fundo somos os grandes guardiões da higiene de todo o reino. Trabalhamos todos os dias para ressaltar o que cada ambiente tem de mais belo. Tornamos a vida das pessoas que aqui vivem e de todos os nossos amigos mais brilhante!
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- Minha filha, somos aquilo que acreditamos ser! Somos aquilo que desejamos e fazemos ao outro. Lembre-se disso! - finalizou papai Lixário.
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E todos daquela família continuaram sendo admirados e claro que foram felizes para sempre!
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