Hoje ouvindo um CD (um antigo
ritual dos anos 90) de minha coleção que hoje deve ter algo em torno mil CDs (e
não falo isso para me gabar e sim para confirmar o quanto sou de outro tempo),
que visito de vez em quando, lembrei-me de um tempo incrível que vivíamos entre
os anos idos 80 e 90
.
Eu sempre respirei música, mesmo
antes de conhecer as palavras direito e à medida que fui crescendo e ganhando
meu próprio dinheiro, meu reduzido “soldo” era investido praticamente todo em
discos de vinil, aparelhagem de som e caixas produzidas artesanalmente por um
grande artista conhecido por “Cabinho”, pra nós, adolescentes e vizinhos dele, “Seu
Josi”.
“Seu Josi” era um autêntico
amante da música soul black, que naquela época ainda mandava muito bem dos
artistas da Motown e de outras gravadoras americanas que acamparam o movimento
black, lá fora, dos bailes da Chick Show, Kaskatas e Black Mad aqui dentro. Um
dos melhores dançarinos de samba rock que eu já vi em atividade (pelo menos
para a minha larga experiência adolescente daquela época).
Cabinho ou Seu Josi (para nós) também
era famoso por algo que, para nós, rockeiros, interessava mais que a black
music: Produzia as mais perfeitas caixas acústicas da região. E ele ainda parcelava
aquelas obras de artes pra gente! Eram perfeitas! A qualidade de graves, agudos,
a potência suportada, a qualidade com que o som se propagava a partir daquelas
caixas era algo incrível. E a durabilidade? Tenho amigos, que até hoje têm as
suas, ou as nossas que foram distribuídas entre os mais fiéis daquele som, a
medida que os outros cresciam, casavam e iam embora.
Grandes amizades se formaram
naqueles anos 80. Éramos uma turma interessante. Samuca, Popeye, Fernando,
Marquinhos, Kiko, Gil, Agemeu, Alemão, Roni e tantos outros que eram próximos de
alguns de nós e acabavam virando nossos parceiros também, em encontros
eventuais.
Cada um com suas manias, seu jeito
de receber os “parceiros” em suas casas, geralmente de uma forma, que as nossas
mães ficavam malucas, com a barulheira que saiam das caixas de “Seu Josi” ou das
nossas vozes alteradas, falando sobre rock, bandas e por aí vai.
Um dos nossos rituais era o de
sentar na calçada ou entrada da casa visitada, colocar as caixas pra fora (na
garagem da casa), juntarmos as moedas pra comprar um vinho ou algumas cervejas,
quando a fartura permitia ou ainda, uma cachaça e alguns limões (por que de um
limão se faz uma limonada, só que pra uma caipirinha você precisa de mais
alguns) pra fazemos a nossa caipirinha compartilhada e assim, passávamos parte
do nosso dia. Até que o papo se encerrasse por aquele dia, a cerveja ou algo
assim acabasse ou a mãe que nos recebia nos expulsava mesmo.
Neste tempo criei um hábito, que
depois virou meio que um rito e que trouxe comigo até meados dos 90, no formato
original e prosseguiu pela outra metade dos anos 90, num formato modernizado.
Como eu e Gil (outro amigo da
época) tínhamos os maiores acervos de vinil da turma. Éramos ratos de sebos e
lojas especializadas em rock e MPB (sim, eu já começava a descobrir a nossa
música naquela época rockeira), todo mundo “pagava pau” (admirava / invejava/
comentava) pra a qualidade de nosso acervo, então passei a gravar seleções de
rock e MPB para meus amigos, depois para os amigos dos amigos e depois para
cada pessoa que nos visitava.
Era mais ou menos assim, sempre
que uma pessoa ia nos visitar, ela ia embora com uma seleção produzida
especialmente para a pessoa, para aquele momento, para aquele encontro. Tudo
isso numa fita cassete. Então saiam
coisas inusitadas e exclusivas. Por que a medida que o papo fluía e as cervejas
iam acabando, a inspiração aumentava.
Ao final, o visitante levava sua
fita, apresentada, com a seleção creditada na capa do cassete. Com certeza,
centenas de pessoas devem ter fitas cassetes gravadas por mim, naquela época.
Por que isso acontecia religiosamente, todas as vezes, que alguém pisava os pés
na nossa casa.
Esse rito começou a repercutir e tinha
uma galera que já vinha lá em casa sabendo da seleção. Eu gravava umas coisas
raras, coisas que ninguém nunca ouvira falar. Tinha a galera que sempre queria
mais seleções e ainda hoje eu e Popeye, com menos frequência, até por conta da distância
em que moramos um do outro, compartilhamos nossas novidades.
Depois as fitas cassetes saíram de
moda. Assim como o vinil e vendi minha coleção de mais de mil vinis, onde muita
cosa já tinha em CD. Hoje o vinil até voltou. Não como era no nosso tempo. As
fitas cassetes não. Elas fazem falta aos encontros. Elas fazem falta às amizades.
Como uma
amizade
pode sobreviver sem uma fita cassete?
Me pergunto.
Gravar um CD nunca será igual.
Aquela coisa fria. Um arquivo sendo transferido. A fita cassete nunca poderia
ser fria. Você ouvia a música sendo gravada, cantava junto, se inspirava para a
próxima faixa. Por que as fitas não eram planejadas. Até tinhas aquelas
temáticas, do tipo, fitas de clássicas do metal ou coisa parecida. Só que a
grande maioria, era criada ali, na hora, uma música puxava a outra. Até que 12,
14, 16, 20 músicas estavam prontinhas, para embalar muitos momentos daquela
pessoa que saia de casa, feliz da vida.
Minhas preferidas eram a de 46
minutos. Uma seleção correta. Em seguida, vinham as de 60 minutos. Não gostava
das de 90 minutos. Pesava com o tempo e distorcia o som, dependendo do aparelho
em que fossem executadas. Cabiam mais músicas. E o melhor de uma fita cassete,
era que ela tinha o Lado A e o Lado B. Essa pausa faz a diferença na vida de
quem ouve música.
Bem. Resolvi lembrar e
compartilhar isso hoje. Estou aqui, ao lado do meu som, resgatando uns CDS e a
à medida que eles foram sendo tocados e trocados, imaginei uma bela fita
cassete que daria essa hora de música que ouvi aqui. Eu me presentearia com
ela, tranquilamente!
Queria aproveitar para agradecer
todo aquele que recebeu uma fita cassete gravada por mim. Foi a coisa mais
prazerosa que fiz por alguém e lembro da sensação de cada uma delas ao recebê-las
e ao ouvi-las comigo enquanto batíamos papo. Muitas amizades fiz a partir
destas fitas cassetes ou CDs. Amizades longas, curtas, eternas, findas, não importa.
Somos um pouco destes rituais!
CARPE DIEM

