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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Antigos rituais de amizade


Hoje ouvindo um CD (um antigo ritual dos anos 90) de minha coleção que hoje deve ter algo em torno mil CDs (e não falo isso para me gabar e sim para confirmar o quanto sou de outro tempo), que visito de vez em quando, lembrei-me de um tempo incrível que vivíamos entre os anos idos 80 e 90
.
Eu sempre respirei música, mesmo antes de conhecer as palavras direito e à medida que fui crescendo e ganhando meu próprio dinheiro, meu reduzido “soldo” era investido praticamente todo em discos de vinil, aparelhagem de som e caixas produzidas artesanalmente por um grande artista conhecido por “Cabinho”, pra nós, adolescentes e vizinhos dele, “Seu Josi”.

“Seu Josi” era um autêntico amante da música soul black, que naquela época ainda mandava muito bem dos artistas da Motown e de outras gravadoras americanas que acamparam o movimento black, lá fora, dos bailes da Chick Show, Kaskatas e Black Mad aqui dentro. Um dos melhores dançarinos de samba rock que eu já vi em atividade (pelo menos para a minha larga experiência adolescente daquela época).

Cabinho ou Seu Josi (para nós) também era famoso por algo que, para nós, rockeiros, interessava mais que a black music: Produzia as mais perfeitas caixas acústicas da região. E ele ainda parcelava aquelas obras de artes pra gente! Eram perfeitas! A qualidade de graves, agudos, a potência suportada, a qualidade com que o som se propagava a partir daquelas caixas era algo incrível. E a durabilidade? Tenho amigos, que até hoje têm as suas, ou as nossas que foram distribuídas entre os mais fiéis daquele som, a medida que os outros cresciam, casavam e iam embora.

Grandes amizades se formaram naqueles anos 80. Éramos uma turma interessante. Samuca, Popeye, Fernando, Marquinhos, Kiko, Gil, Agemeu, Alemão, Roni e tantos outros que eram próximos de alguns de nós e acabavam virando nossos parceiros também, em encontros eventuais.

Cada um com suas manias, seu jeito de receber os “parceiros” em suas casas, geralmente de uma forma, que as nossas mães ficavam malucas, com a barulheira que saiam das caixas de “Seu Josi” ou das nossas vozes alteradas, falando sobre rock, bandas e por aí vai.

Um dos nossos rituais era o de sentar na calçada ou entrada da casa visitada, colocar as caixas pra fora (na garagem da casa), juntarmos as moedas pra comprar um vinho ou algumas cervejas, quando a fartura permitia ou ainda, uma cachaça e alguns limões (por que de um limão se faz uma limonada, só que pra uma caipirinha você precisa de mais alguns) pra fazemos a nossa caipirinha compartilhada e assim, passávamos parte do nosso dia. Até que o papo se encerrasse por aquele dia, a cerveja ou algo assim acabasse ou a mãe que nos recebia nos expulsava mesmo.

Neste tempo criei um hábito, que depois virou meio que um rito e que trouxe comigo até meados dos 90, no formato original e prosseguiu pela outra metade dos anos 90, num formato modernizado.

Como eu e Gil (outro amigo da época) tínhamos os maiores acervos de vinil da turma. Éramos ratos de sebos e lojas especializadas em rock e MPB (sim, eu já começava a descobrir a nossa música naquela época rockeira), todo mundo “pagava pau” (admirava / invejava/ comentava) pra a qualidade de nosso acervo, então passei a gravar seleções de rock e MPB para meus amigos, depois para os amigos dos amigos e depois para cada pessoa que nos visitava.

Era mais ou menos assim, sempre que uma pessoa ia nos visitar, ela ia embora com uma seleção produzida especialmente para a pessoa, para aquele momento, para aquele encontro. Tudo isso numa fita cassete. Então saiam coisas inusitadas e exclusivas. Por que a medida que o papo fluía e as cervejas iam acabando, a inspiração aumentava.

Ao final, o visitante levava sua fita, apresentada, com a seleção creditada na capa do cassete. Com certeza, centenas de pessoas devem ter fitas cassetes gravadas por mim, naquela época. Por que isso acontecia religiosamente, todas as vezes, que alguém pisava os pés na nossa casa.

Esse rito começou a repercutir e tinha uma galera que já vinha lá em casa sabendo da seleção. Eu gravava umas coisas raras, coisas que ninguém nunca ouvira falar. Tinha a galera que sempre queria mais seleções e ainda hoje eu e Popeye, com menos frequência, até por conta da distância em que moramos um do outro, compartilhamos nossas novidades.

Depois as fitas cassetes saíram de moda. Assim como o vinil e vendi minha coleção de mais de mil vinis, onde muita cosa já tinha em CD. Hoje o vinil até voltou. Não como era no nosso tempo. As fitas cassetes não. Elas fazem falta aos encontros. Elas fazem falta às amizades.

Como uma amizade 
pode sobreviver sem uma fita cassete? 
Me pergunto.

Gravar um CD nunca será igual. Aquela coisa fria. Um arquivo sendo transferido. A fita cassete nunca poderia ser fria. Você ouvia a música sendo gravada, cantava junto, se inspirava para a próxima faixa. Por que as fitas não eram planejadas. Até tinhas aquelas temáticas, do tipo, fitas de clássicas do metal ou coisa parecida. Só que a grande maioria, era criada ali, na hora, uma música puxava a outra. Até que 12, 14, 16, 20 músicas estavam prontinhas, para embalar muitos momentos daquela pessoa que saia de casa, feliz da vida.

Minhas preferidas eram a de 46 minutos. Uma seleção correta. Em seguida, vinham as de 60 minutos. Não gostava das de 90 minutos. Pesava com o tempo e distorcia o som, dependendo do aparelho em que fossem executadas. Cabiam mais músicas. E o melhor de uma fita cassete, era que ela tinha o Lado A e o Lado B. Essa pausa faz a diferença na vida de quem ouve música.

Bem. Resolvi lembrar e compartilhar isso hoje. Estou aqui, ao lado do meu som, resgatando uns CDS e a à medida que eles foram sendo tocados e trocados, imaginei uma bela fita cassete que daria essa hora de música que ouvi aqui. Eu me presentearia com ela, tranquilamente!

Queria aproveitar para agradecer todo aquele que recebeu uma fita cassete gravada por mim. Foi a coisa mais prazerosa que fiz por alguém e lembro da sensação de cada uma delas ao recebê-las e ao ouvi-las comigo enquanto batíamos papo. Muitas amizades fiz a partir destas fitas cassetes ou CDs. Amizades longas, curtas, eternas, findas, não importa. 

Somos um pouco destes rituais!

CARPE DIEM

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pantanal (Mãe Natureza)


Banho de rio
Trilha nas matas
Lavo o meu cansaço
Nas frias cascatas

Luz do amanhecer
E a tarde dourada
No céu, nuvens de algodão
E o voo da passarada

Estrelas da noite
E a luz dos vagalumes
E canta uma cigarra
Como é o seu costume

O canto do Aracuã 
Feliz da vida
Anuncia que o dia agora vai raiar
Na Terra querida

De dia,  Sol  brilha lá no céu
À noite, a Lua bem faceira,
Mãe natureza, nossa mãe!
Mãe da beleza verdadeira

É no Pantanal
Que lavo minh'alma
E minha canseira
Numa cachoeira

CARPE DIEM

sexta-feira, 29 de março de 2013

Saudade, simplesmente saudade...


Saudade. Saudade de encontrá-lo em sua sala. 

De ser recebido com seu sorriso expressivo e expansivo.
Do seu olhar amoroso e bondoso.
Saudade dos seus conselhos silenciosos e tão cheios de palavras.
Saudade dele, que com um dos dedos formava letra por letra, de onde brotavam, palavras que aqueciam e envolviam o nosso coração.
Saudade de sua presença. Aquela presença de pai que ele sabia bem como ser.
Dele aprendi a ser mais humano. Ser mais paciente. Ser mais grato pelas dificuldades e desafios que aparecem.
Dele aprendi a ser caridoso e humilde.
Ainda que não tenha tido a capacidade de exercitar tanto aprendizado. A lição foi dada.
Dele ficou o amor, a paciência, a resignação e resiliência.
Ficou a plenitude da coragem e da fé incondicional no Pai maior.

Hoje, bateu a saudade amorosa.

Um tempo atrás, quando era possível, compartilhávamos um bom café da tarde. Um café paciente e demorado. Um café regado a boas palavras e bom companhia.

Um tempo atrás, compartilhávamos uma torcida pelo Guga, no tênis. Não que fossemos fãs e conhecedores de tênis. Éramos conhecedores do compartilhar mesmo. Poderia ser um partida de rugbi, de futebol, de hoquei. Pouco importava. Compartilhar era a melhor viagem.

Outro dia, segurava em sua mão. Como um filho segura na mão de um pai. E ele, humilde e amoroso, apertava a minha. Como um pai que aperta a mão de um filho. Como que dizendo: "Estou aqui. Sei que está comigo. Estou contigo."

Saudade deste homem que tanto nos ensinou. Que nos deum a real dimensão do que é crer e lutar. Do que aceitar e confiar.

Hoje foi assim. Lá fora o tempo corria e seguia o seu curso. Aqui dentro, ele estava vivo, transformado em saudade.

Bom que estás conosco. Bom que está bem.

Que sua janela, na noite de hoje, receba um lindo girassol, simbolizando o meu amor por você. O nosso amor, gratidão e eterno respeito por sua história e ensinamentos.

Durma bem, meu bem! Durma bem, pai presente.

CARPE DIEM

terça-feira, 5 de março de 2013

Mulheres - Eva (Capítulo I)


“Quantas coisas eu já enfrentei. A vida é um eterno lutar!” Este era o pensamento que visitava Eva, naquela tarde de final de verão. Em sua cadeira de balanço, apreciando mais um por do sol deslumbrante, na varanda daquela casa repleta de histórias.

Eva percebeu mais uma vez, que estava entrando no seu período nostálgico, como costumava chamar os dias que antecediam o primeiro final de semana de março. Por várias razões – sendo uma das principais o dia em que se casara com Otávio – ela escolhera este período para reunir sua família, hoje espalhada pelo Brasil.

“Como seria bom se ele ainda estivesse aqui!” – Pensou ela, quando se lembrou das razões de seu período nostálgico. Este pensamento não a deixava triste. Houve um tempo que sim. Hoje, não mais! O tempo nos ensina sobre as chegadas e partidas.

Eva era uma mulher batalhadora. Tivera 10 filhos. Destes, 7 “vingaram”, como costumava se dizer naquela época. Poucas mulheres naquela Trazia na face, as rugas que deixavam claro que sua vida não fora fácil. Sua boa memória, sua vitalidade e sua firmeza escondiam bem os 94 anos, que as rugas teimavam em mostrar. “Somos o que acreditamos ser e não o que aparentamos”, dizia sempre ela. Por isso ela orientava seus filhos desde pequenos para que jamais cultivassem maus pensamentos ou comportamentos.  Fez isso também com os netos e bisnetos.

Com a morte de Otávio, há mais de vinte anos, ela se tornara a grande líder daquela grande família. Eram sete filhos, sendo quatro mulheres e três homens, vinte e um netos e onze bisnetos. Ela tinha orgulho de contar como ela e Otávio batalharam no início para criarem os filhos. Ele na lavoura e ela como professora. Todos os anos, com a família em volta da matriarca, talvez com o intuito de reforçar os seus valores, ela narrava suas memórias:

Otávio era um marido moderno. Eu era uma das poucas mulheres casadas que trabalhavam na nossa cidade. Naquele tempo, era uma vergonha para o homem permitir ou precisar que sua mulher trabalhasse para manter uma casa. Sem contar que as mulheres que lutavam por liberdade e igualdade de direitos eram mal vistas pela sociedade. Eu não era adepta destes movimentos, por que não me via hostilizada ou sufocada por meu esposo.

Era um tempo em que os filhos mais velhos ajudavam a cuidar dos menores. A Tereza, na época com 11 para 12 anos era quem nos ajudava a cuidar dos outros três. De manhã ela estudava no Grupo Escolar e quando chegava eu saía para dar aula no mesmo Grupo em que ela estudava. Era sempre assim. Eu deixava a casa organizada, a comida pronta e as tarefas para Tereza.

No inicio da década de 40, com a segunda Guerra em pleno curso na Europa, as coisas estavam difíceis por aqui.  Estávamos em plena Era Vargas, um misto de democracia e ditadura. Se por um lado crescíamos como país, por outro éramos sufocados pela mão pesada do Estado. 

Trabalhávamos muito, eu e Otávio. E aos poucos prosperamos, compramos um pequeno sítio, que logo virou uma pequena fazenda e finalmente começamos a trabalhar na nossa própria lavoura. Com a chegada de mais dois filhos, totalizando cinco na época, parei de lecionar e comecei a apoiar Otávio nas tarefas da fazenda. Enquanto ele conduzia os trabalhos no campo, eu cuidava da burocracia e do comércio. Logo percebemos que eu tinha vocação para negociar nossa produção. Otávio dizia brincando que tinha até medo de estar do outro lado, quando se travada de mim, numa negociação. Eu era uma das poucas mulheres que fazia negócios com homens. Eles estranharam no começo, e aos poucos, foram se acostumando com isso.

O restante da história vocês sabem. Acompanharam à medida que cresciam a nossa volta. Creio que fizemos um bom trabalho e que graças ao meu envolvimento no dia-a-dia de Otávio, consegui cuidar de tudo, mesmo sem ele. Sim! Otávio foi um excelente parceiro!

Naquela família todos a admirava. Porém o brilho nos olhos das filhas, netas e bisnetas deixava claro o quanto Eva era querida e o quanto elas tinham orgulho de serem frutos de Eva. Embora, ouvissem todos os anos a mesma história, elas terminavam sempre fascinadas com a vitalidade daquela mulher quase centenária.

Carpe Diem

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Cavalo do Rei (ou os sonhos de cada um)


Certa vez um Rei teve um sonho que o deixou intrigado. E este sonho se repetiu por dias e dias. E quanto mais ele tentava esquecer aquele sonho, mais ele marcava presença em suas noites. Foi quando resolveu reunir os sábios do reino para relatar-lhes o sonho que o acompanhava e sempre com o mesmo desfecho.

Depois de cumprimentarem solenemente o bondoso Rei, lá estavam todos os sábios reunidos, em volta da grande mesa do Reino, prontos para ouvir o que o Rei tinha a relatar sobre seu sonho, que dizia assim:

Estava eu numa linda estrada, margeada por belas árvores que tornavam o trajeto agradável, graças à sombra fresca. Além das árvores, ele percebeu que havia pequenos jardins que coloriam tudo em volta. Seguia ele velozmente em seu cavalo branco sempre em frente. Sempre em frente. Intrigava-o a estrada não ter nenhuma curva.

Mais adiante, ele pode ouvir um som característico de água caindo nas pedras. Tratava-se de uma cachoeira. Aquele som aumentava, à medida que ele se seguia em sua direção. Rapidamente, em seu cavalo, chegou a vislumbrar a queda d’água, quando passou ao lado dela. Uma vontade de entrar nestas águas o invadiu, mas ele estava com pressa. Na verdade, ele até tentou frear seu cavalo, porém ele não obedeceu a seu comando.

Continuava seguindo em frente, quando vislumbrou uma pequena casa aconchegante, com um lindo flamboyant florido à sua frente. Percebeu que crianças brincavam alegremente no quintal. Queria saber do que brincavam e o que os alegrava tanto! Viu também um belo templo, que mesmo a distância transmitia uma sensação de paz e harmonia ao seu espírito. Tentou parar seu cavalo, que não obedeceu, mais uma vez.

Mais coisas belas passaram por seus olhos. Serras, aves cortando os céus ou cantando nos galhos das árvores que margeavam aquela linda estrada. Pessoas caminhavam. Animais teimavam em se mostrar pra ele. Era como se todas as coisas belas da vida, fizessem parte daquela estrada. Se no começo da viagem ele estava fascinado com a magia desta estrada, ao perceber que seu cavalo nunca cansava e nem parava, ele ficava cada vez mais preocupado, amedrontado. Perguntas povoavam sua cabeça. Ficarei neste cavalo pra sempre? Não poderei aproveitar tantas coisas belas desta estrada? Pra onde estou indo mesmo? Quando chegarei ao meu destino?

Aflito, olhando para seus sábios, o Rei fala:

- Envolto em tantas perguntas despertei, sem saber o desfecho desta minha viagem nesta estrada. O que meus sábios acham que significa este sonho que me persegue há semanas? Sempre da mesma forma.

E conclui:

- A única coisa que muda é que a cada repetição percebo mais detalhes da estrada. É como se a cada visita ao sonho, já familiarizado com o caminho, começasse a observar mais as pequenas coisas. E justamente essa percepção que torna o sonho mais doloroso, por que em todas às vezes, não consigo parar ou diminuir a velocidade do meu cavalo. Sempre em frente e sem conhecer qual o meu destino.

Os sábios pedem licença ao Rei e após discutirem o repetitivo sonho do Rei chegam a uma conclusão que um deles transmite ao mesmo:

- Nosso querido Rei, concluímos que seu sonho recorrente está lhe mandando um aviso. Imagine que a Estrada simbolize a VIDA. As árvores, as flores, os pássaros e animais são as BELEZAS que a natureza oferece aos nossos olhos e corpo. A cachoeira simboliza a RENOVAÇÃO de energias. A casa, com crianças brincando sob uma árvore representam a ALEGRIA de compartilhar os bons momentos com os seus. O templo representa a PAZ que todos nós precisamos para seguir em frente.

- E o que quer dizer não conseguir parar meu cavalo nunca? – Pergunta o Rei.

- Muito simples, meu nobre Senhor. O cavalo representa seu QUERER sempre mais. Não bastam as árvores, as flores, os pássaros, os animais, as crianças, a alegria do brincar, o frescor de um banho de cachoeira. Embora tudo isso lhe encante, em seu sonho, o que busca é sempre seguir em frente. Conquistar mais. Ter mais. Ser mais. E como esses objetivos não têm medida, seu cavalo não consegue parar.

A partir daquele dia, o Rei começou a valorizar tudo o que o cercava, considerando VIVER como uma parte importante de seus objetivos materiais.

CARPE DIEM

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Aventuras de Criança


É muito legal você poder ter histórias pra contar. Melhor ainda é vivenciá-las pela primeira vez. Quem aqui se lembra da primeira fogueira, da primeira trilha, do primeiro acampamento, da primeira vez que viajou numa estrada de chão batido ou numa daquelas viagens sob uma chuva torrencial?

Tente trazer a sua mente, a primeira vez que viu um arco-íris com suas cores nítidas ou um por do sol onde o sol deixa o horizonte totalmente alaranjado. Quem se lembra daquela lua gigante no céu, amarelada ou bem branquinha, como se fosse uma grande bola de leite?

Ter histórias pra contar é isso. É transformar suas experiências em palavras, em gestos e muita emoção.

Vivemos um tempo de muita aceleração, objetividade e superficialidade. Nossas crianças estão crescendo neste novo tempo. Dependem de nós para continuarem a valorizar suas primeiras aventuras. Posso dizer com conhecimento de causa que, para uma criança, nada substitui a emoção de uma vivencia natural e simples. Não há jogo eletrônico, nem recurso ou ferramenta tecnológica que seja capaz de substituir a emoção que uma criança sente, por exemplo, ao ver uma fogueira pela primeira vez.

Para ela, participar do processo de criar o fogo, alimentá-lo, vê-lo crescer, iluminando tudo à sua volta é pura magia. Sem contar o ritual de todos em volta, contando histórias, sentindo o calor gostoso, vendo as faíscas alaranjadas, tal qual vagalumes feitos de brasa, brilhando e desaparecendo no céu escuro.

Na sua cabeça, perguntas pipocam. Algumas são externadas outras ficam lá, no cantinho do mistério e da fantasia. Quanto tempo durará este fogo? Será que se chover forte ela apaga? Pra onde vão as faíscas que saem dela?

Tudo isso acontece, enquanto de olhos fascinados pelo fogo e ouvidos bem abertos para ouvir as histórias dos adultos, a criança viaja, no mundo encantado da primeira experiência.

Você pode-me dizer que existem muitas viagens legais para lugares urbanos, parques modernos, resorts de primeira classe e eu acredito que haja mesmo. Agora o que eu posso lhe dizer é que nada, nada mesmo, substitui a magia de uma experiência simples que é conviver como o Natural. 

Por mais urbano que você tenha tornado seu filho, de todas as viagens da vida dele, a que ele sempre se lembrará, será aquela em que ele fez com um tio, com seus avós ou com você mesmo, para conhecer aquela cachoeira, fazer aquela trilha, pernoitar num acampamento montado com a ajuda dele.

Ter histórias pra contar é isso. É reviver o simples. O Natural.

CARPE DIEM

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A vida banalizada - Tragédia em Santa Maria


Chegamos num ponto em que a vida passou a ser descartável para algumas pessoas. Situações tristes como esta que aconteceu na Boate Kiss, em Santa Maria poderiam ter acontecido em qualquer cidade do país. Existem centenas, milhares talvez de espaços como estes. Claro que o problema não é local ou a atividade em si. Afinal, uma danceteria é um espaço de lazer, assim como um circo, um teatro, um cinema ou um mesmo um bar.

A questão aqui é que casas irregulares existem em todos os lugares. Seja uma cidade universitária de médio porte, seja uma grande metrópole. Em maior ou menor proporção, o desleixo com a segurança chega a ser espantoso.

Meus queridos, tudo começa antes de se construir ou de se reformar. Primeiro, é necessário um projeto arquitetônico, além de projeto estrutural, elétrico, hidráulico e de segurança. Nesta fase, são apresentados os materiais adequados e seguros, as melhores práticas de construção e de segurança, as normas a serem seguidas e os prazos a serem obedecidos.

Interagindo com todos estes profissionais, estão os investidores, aqueles viabilizam economicamente a execução do projeto.  A grande maioria (com raras exceções) busca o menor custo possível (o que é justo), porém em detrimento da segurança e funcionalidade do projeto. A economia começa antes desta fase, como por exemplo, opta-se por arquiteto A, ao invés do B, que é mais “careiro”. Escolhe-se um empreiteiro, ao invés de um engenheiro (trabalhando o tempo todo em parceria com este) para conduzir a execução da obra e contrata alguém apenas para “assinar” a obra. Contratam-se não especialistas para elaboração dos projetos complementares e por aí segue.

Ora, uma vez que deixamos de levar em conta as instruções de projeto e recomendações de segurança, estamos correndo riscos, ou pior, estamos colocando vidas em risco.

E não para por aí. Vamos partir do princípio que tudo foi muito bem executado e a tal casa finalmente está pronta e uma lotação segura é autorizada pelos órgãos competentes para tal. E a informação deve sempre estar visível para o usuário e para a fiscalização. O que acontece quando um empresário excede em 10%, 20%, 50% esta capacidade permitida? Primeiro ele ganha mais dinheiro. Segundo, ele coloca todos em risco, no caso de algum acidente, como o ocorrido em Santa Maria.

Se, além de lotação máxima, você coloca pessoas sem a menor perícia para manusear artefatos que produzem faíscas ou descargas elétricas? Se, além disso, você não tem uma equipe altamente treinada para responder a situações de risco e emergência? Se você tiver mecanismos impeditivos para uma rápida evacuação de um ambiente? Ainda nas suposições, se, além de tudo isso, você te muito mais pessoas do que comporta o espaço em questão? 

A resposta para todas estas perguntas é simples: Tragédia anunciada. Uma hora, tal situação ocorreria. E tudo isso motivado por qual razão? Por causa do tal dinheiro. Por causa do lucro fácil, da busca pela vantagem financeira.

Por causa do ganho financeiro, economiza-se em materiais, em profissionais, em treinamentos, extrapola a capacidade máxima permitida de pessoas, trava-se uma saída de emergência e abre-se mão de mais de 200 vidas.

No final deste texto, você concorda que o título é mais que apropriado? Até quando consideraremos a vida, algo tão banal? Até quando concordaremos que a vida é menos importante que investimentos adequados? Até quando ignoraremos normas de seguranças?
E para evitar leviandade, nem vamos falar aqui, que neste caso, houve conivência dos órgãos públicos em conceder licenças indevidas, aprovar projetos falhos ou omitir-se de fiscalizar adequadamente. 

Porém, espalhado por este Brasil, há sim, aqueles que corrompem e deixam-se corromper. Seja para conceder uma licença, seja para aprovar um projeto irregular, seja par a ignorar um estabelecimento durante uma fiscalização. E são estes, que transformam a vida em algo banal. Até que um dia a vida deles ou de alguém ligado a eles sucumbe numa casa, liberada, ignorada por sua caneta. Talvez, este cidadão, seja ele corruptor ou corrupto, perceba que a vida não é assim algo tão banal, como parecia até aquele momento.

Se você que lê este texto, já esteve numa destas posições (corrompendo ou sendo corrompido), já fez vistas grossas, já deixou passar uma irregularidade que poderia por a vida de alguém em risco, sinta-se culpado. Pois se nada aconteceu ainda, um dia poderá acontecer. E creio que não há dinheiro no mundo que se sobreponha a uma vida tirada, graças a uma ação ou a falta dela, por parte de alguém que poderia sim evitar que tal fatalidade ocorresse.

Pouco importa as manobras que ainda farão para livrarem-se de suas responsabilidades, por que no fundo, cada um sabe exatamente o que fez ou deixou de fazer e neste caso, existe uma pena maior que a que qualquer homem é capaz de aplicar. Pouco importa se fulano diz que acionou ou não um sinalizador, ou que ciclano seguiu ou não as normas de segurança impostas. Cada um sabe exatamente, qual o seu grau de responsabilidade nesta tragédia. A consciência de cada um deles saberá realizar as devidas cobranças. Não foi um fato banal, um deslize. Foram mais de 200 vidas tiradas. Pouco importa os rumos da lei. O que está feito, está feito! Nada e ninguém mudarão este fato.

Um abraço fraterno a todos os pais, irmãos, demais parentes e amigos daqueles que graças a estas pessoas que consideraram a vida algo banal tiveram seus sonhos interrompidos.

A vida não é banal. E nunca será!

CARPE DIEM

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Grande Mentor


Lá de dentro ele via o mundo
Guardado em si mesmo
Libertava-se pelo olhar
Seus olhos iam muito além do horizonte
De sua boca saiam palavras
Palavras nem sempre são sons
Através dele, descobrimos que palavras são gestos
Movimentos
De seus dedos vertiam conselhos
Ensinamentos
Como se fossem dedos de um grande mago
Que ao invés de raios
Criavam palavras!

De seu sorriso nascia a coragem
De sua gana pela vida
Lutávamos todos

Aprendemos que viver é fundamental
E que não se pode perder tempo
Com pequenos problemas
Quando somos capazes 
De enfrentarmos
Grandes desafios!

Vez ou outra era visto passeando pelos sonhos
Percorrendo jardins, praças e vilarejos
Algumas vezes só
Outras vezes acompanhado
O sono era seu passaporte para um mundo maior

Aprendemos que limite é um mero detalhe
Que quando queremos mesmo
Tudo é possível
Até viajar
Sem sair do lugar!

Da sua presença surgia a paz
De seu olhar, nascia a compreensão
No seu coração pulsava o amor
De seu sorriso
Nascia o abraço!

CARPE DIEM

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Grande Viagem!

Naquela noite, a lua crescente brilhava. Estrelas eram como pontinhos prateados piscando num céu limpo. A sensação agradável do vento beijando a nossa face tornava aquela noite muito propícia para uma boa caminhada. O vento, o brilho da Lua, as estrelas, o céu limpo, a temperatura agradável deixavam claro, que aquela noite, era uma noite perfeita para uma grande viagem.


Sabíamos que aquele momento se aproximava. Sabíamos que ele tinha seus planos e claro que escolheria a melhor hora, a melhor noite, o melhor momento para partir.

Viajar é sempre bom e excitante. A emoção começa na arrumação das malas. O que levar? O que deixar? Escolhas. Sempre escolhas. Cabe na mala tudo que é nosso, tudo que nos foi dado, tudo que será útil. Deixamos pra traz aquilo que não nos pertence, que não nos será útil, que nos é pesado.

Ele já vinha preparando sua bagagem ao longo destes mais de 70 anos de planejamento. Sabia que era uma viagem longa e que seria muito importante estar preparado. Era nítido o esmero que dedicava a cada coisa que colocava em sua mala. Era evidente que sabia que precisaria fazer escolhas. A mala tinha sua limitação de espaço. Alguns descartes seriam mais que necessários, para que ele levasse consigo apenas o essencial.

Na mala ele dobrou cuidadosamente um tanto de paciência, algumas peças de serenidade, de alegria, outras de solidariedade e uma boa quantidade de perseverança, por fim deixou reservado um espaço maior para o amor e gratidão. Na hora de acondicionar tantas coisas, resolveu que não valeria à pena transportar tristezas, rancores e mágoas. Não caberiam também orgulho e vaidade. Preferiu trocar estas coisas por humildade e coragem. Seriam mais úteis ao longo de sua nova jornada. Tinha plena certeza que seria fundamental levar muita consigo e resignação também. Há coisas na vida que só com muita resignação para entendê-las.

De malas prontas, faltava marcar o dia e o horário da Grande Viagem. Precisava despedir-se das pessoas queridas e seguir, sem olhar para trás, sua nova jornada.

Foi assim. Ao longo de alguns meses, foi preparando cuidadosamente a sua despedida. Aos poucos ele foi abraçando e envolvendo aqueles que fizeram parte de sua jornada. Depois de uma ausência de uns 30 dias, ele retorna para celebrar o Natal, com sua família, saudar o novo ano que chegaria cheio de novidades e emoções. Resolveu apenas que não esperaria seu aniversário daquele ano. Melhor não. Não seria prudente adiar tanto sua ida. E resolveu assim.

Ao lado de todas as pessoas que o amavam. Que eram amadas por ele. As 22 horas e 22 minutos, do dia 19 de janeiro de 2013, chega o transporte especial e com sua bagagem muito bem organizada, ele adentra o veículo e segue, sem olhar para trás. Segue com a certeza de que está levando tudo o que precisa, que deixou as coisas inúteis para trás e que para cada pessoa que tanto ama, deixou muitas lições, amor, coragem e fé. Ele partiu, por que sabia que seus alunos estavam prontos para seguirem seus caminhos, sem os cuidados constantes dele.

Agora, era a sua vez de aprender e praticar. Numa nova escola. Num novo mundo.

Feliz Grande Viagem!

(Homenagem ao nosso pai e amigo Orlando Losso)

CARPE DIEM

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um novo tempo!


Tempo de renascer
Tempo de reinventar
Tempo de reviver
Tempo de recriar

Tempo de recomeçar
Tempo de refazer
Tempo de acreditar
Tempo de reescrever

Tempo de olhar pra frente
De agir diferente
De ter coragem
De se reerguer

Tempo de um novo ciclo
Tempo em que reciclo
Ideias, sentimentos e desejos!

Tempo de criar projetos
De descartar velhos objetos
De pensar grande
De sentir maior ainda!
De simplesmente ser!

Tempo de acreditar na sorte
De amor bem forte
De abraços, beijos e festa!

Tempo de Natureza
De apreciar a beleza
De cuidar do Planeta! 

Tempo de ser melhor
De estar melhor
De fazer o seu melhor!

Tempo de tolerância
De respeitar a infância
De ser solidário


Que venha um novo tempo!

CARPE DIEM!

O "sempre tem algo acontecendo" deseja aos seus amigos, leitores e seguidores um Ano Novo repleto de Luz, de Conquistas, de Paz, de Amor , de Desafios e de Conquistas.
Que cada um consiga os recursos necessários para sua caminhada"

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Trilogia de Natal: II - Sonho compartilhado


Naquela noite, José Luiz e Maria Clara, mal dormiram. A ansiedade de ambos era evidente. O dia havia sido de grande emoção, afinal, ligaram do Departamento de Adoção, convidando-os para conhecerem um Lar de crianças. Uma vez, liberados para o processo, estavam prontos e aptos a buscarem o filho que tanto sonhavam.

À noite, os dois lembraram os anos que tentaram ter um filho, a vontade enorme de Maria Clara em ser mãe e os sonhos de José Luiz em ter um menino. A ansiedade era tanta que falavam quase ao mesmo tempo:

- Meu Deus, é amanhã! Será que vou encontraremos o nosso filho? Será que ele vai ser fã de futebol! Sempre quis ter um parceiro para assistir aos jogos! – Fala José Luiz

- Não vejo a hora de ter mais alguém na nossa mesa. De levá-lo à escola! Será que ele será estudioso? Será que ele ficará feliz em sermos seus pais? – Continuava apressadamente Maria Clara

- Que ideia Clara! Claro que ele será feliz conosco. Ele terá um lar! A pergunta é outra. Será que seremos bons pais? Estamos mesmo prontos? – Devolve José Luiz

- Estamos sim, amor. Vamos dormir. Amanhã será um dia importante. Para nós três. Seja lá quem for ele. – Sentencia Maria Clara.

Alguns segundos de silêncio, ambos abraçados na cama, quando o falatório recomeça. Ambos divagavam sobre quase tudo. Sobre como seria ele, como reagiria, quais eram suas preferências e tantas outras indagações que o acompanhavam desde sempre.

José Luiz e Maria Clara formavam um casal especial. Casados há 15 anos, sonhavam com um filho. Alimentaram o sonho de serem pais biológicos até os 10 anos de casados e só então viram na adoção uma oportunidade de realizarem o grande sonho. 

Da decisão até o grande dia, foram longos 5 anos de busca. À medida que o tempo passava e que eles amadureciam, as exigências foram se transformando. Inicialmente buscaram recém nascidos e com características físicas próximas às deles. Em vão. A concorrência era enorme e a disponibilidade não atendia a demanda de futuros pais.

Um dia, chegaram à conclusão que, se realmente desejassem serem pais, não deveriam escolher o filho que viria. Afinal, se fosse um filho biológico, eles teriam chance de escolha? Eles escolheriam o sexo, as condições físicas e de saúde do bebê?Claro que não! Então assim seria. A partir de agora, estaria abertos e disponíveis para o filho que lhes fosse reservado.

Acompanhados pela assistência social e pelo núcleo de psicologia do departamento de adoção, sentiam-se mais seguros a cada dia e o aval dos especialistas os encorajava ainda mais.

Fazia algum tempo que frequentavam palestras, participavam de fóruns de discussão, liam livros e estavam convencidos da carência que existia de pais para crianças mais maduras. Eram praticamente esquecidas e ignoradas nos lares e abrigos.

Naquela noite, ambos recordaram tudo isso. Repassaram os passos de uma busca que vinha de muito tempo.  No coração de cada um deles, um sentimento que praticamente se traduzia em certeza: 

Aquela busca estava chegando ao fim. Eles encontrariam seu filho, pela manhã.

Naquela noite, foi este sentimento que embalou o sono de ambos.

CARPE DIEM

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Trilogia de Natal: I - Nasce um sonho

Paulo acordara agitado mais uma noite. Tinha sido assim nos seus últimos 4 ou 5 anos, nestes dias que antecediam ao Natal. Inexplicavelmente, ele sentia saudade de uma família que nunca teve. Ou pelo menos se teve, não se lembrava.

Com seus quase 8 anos, vivendo num lar para crianças, suas chances de ter uma nova família, segundo o pouco que sabia, eram quase zero.

Paulo chegara ao lar, aos dois anos de idade, vítima da violência alcoolizada de seus pais. Era um menino esperto e trazia no olhar um brilho especial. Em poucos dias cativou a todos no abrigo, com seu jeito sorridente e otimista. De vez em quando era pego pensativo num canto de parede ou em sua caminha. Mas era uma criança! E esta introspecção durava apenas alguns minutos.

Os anos se passaram. Paulo cumpria novos ciclos, novos rituais. Bolos, festinhas internas, abraços dos colegas de adoção, dos monitores, das cozinheiras e de todos que ali compartilhavam com ele, da mesma esperança. Ter um lar! Não que ali não fosse um lar. Era sim e com muito mais amor do que quando ele vivia na casa dele. Nunca mais tomara uma surra. Nunca mais fora xingado de inútil, de cruz ou de atraso de vida. Tudo era muito bom, porém faltava-lhe alguém para chamar de mãe, de pai, de irmão. Faltava-lhe avós! Faltava-lhe espaço.

Por muitas vezes, Paulo viu casais chegando no abrigo e logo percebeu que ser um bebê, de pele clara e sorridente facilitava muito encontrar um lar. Percebeu que quanto mais novinho e mais perfeitinho, mais rápido iria para casa. Aliás, ficava impressionado como estas crianças eram disputadas. Parecia aquelas taças dos campeonatos de futebol, que ele assistia na TV. Todo mundo queria!

Naquela noite, em que ele acordara atordoado pelo sonho de ter um pai, segurando sua mão, contemplando uma linda paisagem ele resolveu fazer um pedido. Apenas um. Não queria brinquedos, festas, Papai Noel ou coisa que o valha. Ele queria apenas uma coisa: Uma família!
"Papai do Céu! Meu nome é Paulo. Tenho quase 8 anos. O que vou lhe pedir eu sei que é quase impossível. Mas como sempre a Dona Veridiana diz que pra você nada é impossível, resolvi pedir neste Natal, uma família de presente. Eu prometo, Papai do Céu, ser um bom filho, ajudar nas tarefas de casa, ser amoroso com minha nova mamãe e serei grato a esta família que me acolher, dando o meu melhor e farei tudo para não dar trabalho para ninguém. Por isso, peço com todo minha força, me ajude a realizar este pedido e meu maior sonho. Amém!"

Como que envolvido por uma força bondosa, Paulo sentiu-se abraçado, tão logo terminou sua oração e voltou a deitar-se. Aos poucos o sono tranquilo tomou conta de seu corpinho esperançoso.

O resto da noite, em que dormiu, foi povoado por imagens belas, de sua família futura e sonhada. Viu-se brincando, passeando e abraçando sua mamãe. No seu sonho, ela era morena clara, pele bonita, cabelos negros e brilhosos e uns olhos, que mais pareciam os seus. No seu colo, ele deitado, sentia as mãos dela brincando nos seus cabelos, num cafuné gostoso e tranquilizador. No colo dela ele se viu adormecido. Foi neste colo que ele despertou logo cedo, ao toque do sino do abrigo e da presença amorosa da monitora Júlia, que sempre era a primeira pessoa que via, perto de sua cama.

- Bom dia, Paulo! Que cara boa! Estava num sonho bom, não é mesmo? - Disse Júlia, com voz suave e amorosa.

Paulo não respondeu. Apenas sorriu, ainda entorpecido pelo sonho bom...

CARPE DIEM

sábado, 3 de novembro de 2012

Avatar: A experiência

Era um dia como qualquer outro para quase todos que viviam naquele mundo. Cada um cuidando de sua vida, de seus afazeres, de seus sonhos. O sol despontava iluminado, lá no horizonte. Nuvens brancas enfeitavam o céu azulado. Pássaros cantavam envolvendo os que passeavam pelas ruas. Apesar de ser mais um dia na vida daqueles que viviam regidos pelo mesmo tempo, algo estava diferente para um deles. Para alguém muito especial para nós.

Se antes repousava inerte, limitado em seu leito, hoje ele se viu, depois de algum tempo, caminhando por entre os ipês carregados por flores multicoloridas. Num certo momento experimentou uma corrida rápida. Talvez para sentir o ar entrando com mais potência pulmões adentro.

Após alguns metros, numa praça, ele avistou uma bela flor, entre um punhado de ervas rasteiras. Certamente que aquela flor se destacava. Sua cor alaranjada brilhante era o que tornava o cenário mais belo. Agachou-se (a sensação de agachar-se foi uma das mais incríveis de se provar, depois de tanto tempo) e tocou as pétalas daquela flor. Controlou seu instinto de arrancá-la e preferiu apenas sorver o perfume suave que vinha de sua direção.

Os olhos mapearam toda a praça e o cenário o deixou feliz. Crianças brincando com suas mães. Um vendedor de frutas passou ao seu lado. Sua voz saiu clara e segura quando o chamou:

- Ei! Seu moço! Que frutas você tem nesta cesta?

- São doces morangos, senhor! Aceita um? – respondeu sorridente o moço da cesta.

- Deixe-me provar um! Há quanto tempo não provo fruta alguma! – Falou ao mesmo tempo em que sua mão direita pegava um morango vermelho e brilhante e levava até sua boca.

Sentiu-se entorpecido, por um segundo. A sensação de provar uma fruta tão doce e saborosa foi indescritível. Como que por encanto, os sabores de tantos alimentos povoaram suas lembranças. O café da tarde acompanhado de deliciosos pães. As refeições simples de cada dia. O sabor de um beijo!

Queria sentir mais. Queria provar da sensação de um abraço. Ao seu lado, um senhor passava. Ele dirigiu-se até ele e com um sorriso no rosto abriu os braços e claro que a outra pessoa entendeu aquele sinal de entrega. Também abriu os braços e enlaçaram-se num abraço fraterno. Certamente que os transeuntes ficaram intrigados. Afinal, nos tempos de hoje, não se é tão comum abraços fraternos, fora de datas especificas. Aquele dia era um dia comum, como qualquer outro. Não cabiam abraços assim, sem razão!

Mal sabiam eles, o que sentiu quando abraçou aquele homem bondoso. Era como que de suas mãos, saíssem luzes amorosas e como se tivesse sido envolvido pela paz. Mal sabiam eles, que aquele dia jamais seria um dia como qualquer outro, para ele.

Naquele dia, caminhar teve outro significado. Assemelhou-se ao bater de asas dos pássaros. Expressar-se através das palavras foi como encontrar a liberdade e sentir sabores, cheiros e o toque foi como adentrar o paraíso. Naquele dia pequenos movimentos, gestos, sentidos significaram muito para ele. Significaram a certeza de que viver valia à pena!

Depois de vivenciar tudo isso ele se sentia pronto para voltar ao seu leito. Seguir o seu destino e voltar à sua inércia temporária. Por que chegaria o dia em que ele seria assim, livre! Para sempre! 

Ele estava vivo!

CARPE DIEM

Dedicado ao nosso querido mestre Avatar!

Avatar é uma manifestação corporal de um ser imortal segundo a religião hindu, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatāra, que significa "descida", normalmente denotando uma (religião) encarnações deVishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Alguém para dividir os sonhos


"Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade."

Raul Seixas


Nada melhor do que ter alguém para dividir os sonhos. Eu penso muito nisso.

Tem gente que pensa que os sonhos são exclusividades das crianças, dos apaixonados e dos poetas. Equívoco total! Todas as pessoas têm sonhos guardados dentro de si. Elas até tentam mudar a nomenclatura. Uns preferem chamar de objetivos, outros de metas, outras de desejos. No fundo todos falam do bom e maravilhoso sonho. Idealização de algo possível ou considerado impossível por muitos.

Você pode sonhar com aquela viagem distante, para um lugar especial e significativo pra você. Caso você vá só, realiza o sonho prático. Agora o sonho real só é realizado quando você compartilha com alguém. Quando você vê aquela paisagem ou monumento e diz "Fulano! Lembra o que eu disse? Não é maravilhoso?" ou "Que bom que você está vendo o que estou vendo"Isto sim, é realizar um sonho!

Você pode sonhar com aquele apartamento, a casa de campo, um carro novo, um novo trabalho, um projeto aprovado. Qualquer coisa vira sonho e se realiza, se corremos atrás. A materialização do sonho, porém, só ocorre quando você compartilha. Pode ser com um amigo, um parente querido, seu parceiro ou parceira de jornada, seus filhos...

O sonho junto é muito mais real. O sonho solitário é uma vitória solitária. Precisamos do outro e somos parte do outro. Não digo de uma dependência patológica, passional. Digo de uma necessidade de estar junto. De conviver, de fazer parte de algo maior que seu mundo.

Como escritor, poeta e sonhador nato, eu sonho muito. Viajo muito nos pensamentos e nas ideias. Alguns até pensam que não sei ser prático. Ledo engano. Sou muito prático e realista. Apenas, tive a honra de ter o "dom de sonhar".

Se você me perguntar se prefiro sonhar só ou acompanhado, eu respondo: "Prefiro sonhar junto. É muito melhor!"

Posso te pedir uma coisa? Sonhe mais. Compartilhe mais. Procure alguém para dividir os seus sonhos! Dará outro norte às suas viagens!

CARPE DIEM

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A vida se renova


É vida que se renova
É alegria que se celebra
Brilho de mãe
Do ventre a luz da vida
Mulher, mãe e guardiã do sopro divino
Benção transformadora
Do ventre a luz que brilha
Olhos que reconhecem o novo mundo
Mãos tateando o corpo daquela que a carregou
Boca que saboreia o mel maternal
Sorvendo o alimento que sustenta a vida
No mundo todos estão à sua espera
O novo amanhece sempre!
No pai, o porto seguro
Se a mãe carrega, o pai espera
Se a mãe traz à vida, o pai conduz
Se a mãe é o alimento, o pai é o acolhimento 
É vida que se renova
E o novo?
Amanhece sempre!
E do novo, nasce uma nova história
E do novo, nasce a luz!

CARPE DIEM
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