domingo, 15 de fevereiro de 2015

Antigos rituais de amizade


Hoje ouvindo um CD (um antigo ritual dos anos 90) de minha coleção que hoje deve ter algo em torno mil CDs (e não falo isso para me gabar e sim para confirmar o quanto sou de outro tempo), que visito de vez em quando, lembrei-me de um tempo incrível que vivíamos entre os anos idos 80 e 90
.
Eu sempre respirei música, mesmo antes de conhecer as palavras direito e à medida que fui crescendo e ganhando meu próprio dinheiro, meu reduzido “soldo” era investido praticamente todo em discos de vinil, aparelhagem de som e caixas produzidas artesanalmente por um grande artista conhecido por “Cabinho”, pra nós, adolescentes e vizinhos dele, “Seu Josi”.

“Seu Josi” era um autêntico amante da música soul black, que naquela época ainda mandava muito bem dos artistas da Motown e de outras gravadoras americanas que acamparam o movimento black, lá fora, dos bailes da Chick Show, Kaskatas e Black Mad aqui dentro. Um dos melhores dançarinos de samba rock que eu já vi em atividade (pelo menos para a minha larga experiência adolescente daquela época).

Cabinho ou Seu Josi (para nós) também era famoso por algo que, para nós, rockeiros, interessava mais que a black music: Produzia as mais perfeitas caixas acústicas da região. E ele ainda parcelava aquelas obras de artes pra gente! Eram perfeitas! A qualidade de graves, agudos, a potência suportada, a qualidade com que o som se propagava a partir daquelas caixas era algo incrível. E a durabilidade? Tenho amigos, que até hoje têm as suas, ou as nossas que foram distribuídas entre os mais fiéis daquele som, a medida que os outros cresciam, casavam e iam embora.

Grandes amizades se formaram naqueles anos 80. Éramos uma turma interessante. Samuca, Popeye, Fernando, Marquinhos, Kiko, Gil, Agemeu, Alemão, Roni e tantos outros que eram próximos de alguns de nós e acabavam virando nossos parceiros também, em encontros eventuais.

Cada um com suas manias, seu jeito de receber os “parceiros” em suas casas, geralmente de uma forma, que as nossas mães ficavam malucas, com a barulheira que saiam das caixas de “Seu Josi” ou das nossas vozes alteradas, falando sobre rock, bandas e por aí vai.

Um dos nossos rituais era o de sentar na calçada ou entrada da casa visitada, colocar as caixas pra fora (na garagem da casa), juntarmos as moedas pra comprar um vinho ou algumas cervejas, quando a fartura permitia ou ainda, uma cachaça e alguns limões (por que de um limão se faz uma limonada, só que pra uma caipirinha você precisa de mais alguns) pra fazemos a nossa caipirinha compartilhada e assim, passávamos parte do nosso dia. Até que o papo se encerrasse por aquele dia, a cerveja ou algo assim acabasse ou a mãe que nos recebia nos expulsava mesmo.

Neste tempo criei um hábito, que depois virou meio que um rito e que trouxe comigo até meados dos 90, no formato original e prosseguiu pela outra metade dos anos 90, num formato modernizado.

Como eu e Gil (outro amigo da época) tínhamos os maiores acervos de vinil da turma. Éramos ratos de sebos e lojas especializadas em rock e MPB (sim, eu já começava a descobrir a nossa música naquela época rockeira), todo mundo “pagava pau” (admirava / invejava/ comentava) pra a qualidade de nosso acervo, então passei a gravar seleções de rock e MPB para meus amigos, depois para os amigos dos amigos e depois para cada pessoa que nos visitava.

Era mais ou menos assim, sempre que uma pessoa ia nos visitar, ela ia embora com uma seleção produzida especialmente para a pessoa, para aquele momento, para aquele encontro. Tudo isso numa fita cassete. Então saiam coisas inusitadas e exclusivas. Por que a medida que o papo fluía e as cervejas iam acabando, a inspiração aumentava.

Ao final, o visitante levava sua fita, apresentada, com a seleção creditada na capa do cassete. Com certeza, centenas de pessoas devem ter fitas cassetes gravadas por mim, naquela época. Por que isso acontecia religiosamente, todas as vezes, que alguém pisava os pés na nossa casa.

Esse rito começou a repercutir e tinha uma galera que já vinha lá em casa sabendo da seleção. Eu gravava umas coisas raras, coisas que ninguém nunca ouvira falar. Tinha a galera que sempre queria mais seleções e ainda hoje eu e Popeye, com menos frequência, até por conta da distância em que moramos um do outro, compartilhamos nossas novidades.

Depois as fitas cassetes saíram de moda. Assim como o vinil e vendi minha coleção de mais de mil vinis, onde muita cosa já tinha em CD. Hoje o vinil até voltou. Não como era no nosso tempo. As fitas cassetes não. Elas fazem falta aos encontros. Elas fazem falta às amizades.

Como uma amizade 
pode sobreviver sem uma fita cassete? 
Me pergunto.

Gravar um CD nunca será igual. Aquela coisa fria. Um arquivo sendo transferido. A fita cassete nunca poderia ser fria. Você ouvia a música sendo gravada, cantava junto, se inspirava para a próxima faixa. Por que as fitas não eram planejadas. Até tinhas aquelas temáticas, do tipo, fitas de clássicas do metal ou coisa parecida. Só que a grande maioria, era criada ali, na hora, uma música puxava a outra. Até que 12, 14, 16, 20 músicas estavam prontinhas, para embalar muitos momentos daquela pessoa que saia de casa, feliz da vida.

Minhas preferidas eram a de 46 minutos. Uma seleção correta. Em seguida, vinham as de 60 minutos. Não gostava das de 90 minutos. Pesava com o tempo e distorcia o som, dependendo do aparelho em que fossem executadas. Cabiam mais músicas. E o melhor de uma fita cassete, era que ela tinha o Lado A e o Lado B. Essa pausa faz a diferença na vida de quem ouve música.

Bem. Resolvi lembrar e compartilhar isso hoje. Estou aqui, ao lado do meu som, resgatando uns CDS e a à medida que eles foram sendo tocados e trocados, imaginei uma bela fita cassete que daria essa hora de música que ouvi aqui. Eu me presentearia com ela, tranquilamente!

Queria aproveitar para agradecer todo aquele que recebeu uma fita cassete gravada por mim. Foi a coisa mais prazerosa que fiz por alguém e lembro da sensação de cada uma delas ao recebê-las e ao ouvi-las comigo enquanto batíamos papo. Muitas amizades fiz a partir destas fitas cassetes ou CDs. Amizades longas, curtas, eternas, findas, não importa. 

Somos um pouco destes rituais!

CARPE DIEM

Um comentário:

Ricardo Macagnan disse...

Eu também sou deste tempo! Quantas tardes de domingo passadas na casa de colegas gravando fitas cassette selecionando faixas de vários discos de vinil. Depois, com que prazer colocava estas fitas num walkman junto com algumas pilhas de reserva e ia andar de bicicleta quase toda a tarde de domingo, ir visitar os amigos e convidar para sair de bicicleta juntos (éramos menores de idade!) Bons tempos...

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