terça-feira, 5 de março de 2013

Mulheres - Eva (Capítulo I)


“Quantas coisas eu já enfrentei. A vida é um eterno lutar!” Este era o pensamento que visitava Eva, naquela tarde de final de verão. Em sua cadeira de balanço, apreciando mais um por do sol deslumbrante, na varanda daquela casa repleta de histórias.

Eva percebeu mais uma vez, que estava entrando no seu período nostálgico, como costumava chamar os dias que antecediam o primeiro final de semana de março. Por várias razões – sendo uma das principais o dia em que se casara com Otávio – ela escolhera este período para reunir sua família, hoje espalhada pelo Brasil.

“Como seria bom se ele ainda estivesse aqui!” – Pensou ela, quando se lembrou das razões de seu período nostálgico. Este pensamento não a deixava triste. Houve um tempo que sim. Hoje, não mais! O tempo nos ensina sobre as chegadas e partidas.

Eva era uma mulher batalhadora. Tivera 10 filhos. Destes, 7 “vingaram”, como costumava se dizer naquela época. Poucas mulheres naquela Trazia na face, as rugas que deixavam claro que sua vida não fora fácil. Sua boa memória, sua vitalidade e sua firmeza escondiam bem os 94 anos, que as rugas teimavam em mostrar. “Somos o que acreditamos ser e não o que aparentamos”, dizia sempre ela. Por isso ela orientava seus filhos desde pequenos para que jamais cultivassem maus pensamentos ou comportamentos.  Fez isso também com os netos e bisnetos.

Com a morte de Otávio, há mais de vinte anos, ela se tornara a grande líder daquela grande família. Eram sete filhos, sendo quatro mulheres e três homens, vinte e um netos e onze bisnetos. Ela tinha orgulho de contar como ela e Otávio batalharam no início para criarem os filhos. Ele na lavoura e ela como professora. Todos os anos, com a família em volta da matriarca, talvez com o intuito de reforçar os seus valores, ela narrava suas memórias:

Otávio era um marido moderno. Eu era uma das poucas mulheres casadas que trabalhavam na nossa cidade. Naquele tempo, era uma vergonha para o homem permitir ou precisar que sua mulher trabalhasse para manter uma casa. Sem contar que as mulheres que lutavam por liberdade e igualdade de direitos eram mal vistas pela sociedade. Eu não era adepta destes movimentos, por que não me via hostilizada ou sufocada por meu esposo.

Era um tempo em que os filhos mais velhos ajudavam a cuidar dos menores. A Tereza, na época com 11 para 12 anos era quem nos ajudava a cuidar dos outros três. De manhã ela estudava no Grupo Escolar e quando chegava eu saía para dar aula no mesmo Grupo em que ela estudava. Era sempre assim. Eu deixava a casa organizada, a comida pronta e as tarefas para Tereza.

No inicio da década de 40, com a segunda Guerra em pleno curso na Europa, as coisas estavam difíceis por aqui.  Estávamos em plena Era Vargas, um misto de democracia e ditadura. Se por um lado crescíamos como país, por outro éramos sufocados pela mão pesada do Estado. 

Trabalhávamos muito, eu e Otávio. E aos poucos prosperamos, compramos um pequeno sítio, que logo virou uma pequena fazenda e finalmente começamos a trabalhar na nossa própria lavoura. Com a chegada de mais dois filhos, totalizando cinco na época, parei de lecionar e comecei a apoiar Otávio nas tarefas da fazenda. Enquanto ele conduzia os trabalhos no campo, eu cuidava da burocracia e do comércio. Logo percebemos que eu tinha vocação para negociar nossa produção. Otávio dizia brincando que tinha até medo de estar do outro lado, quando se travada de mim, numa negociação. Eu era uma das poucas mulheres que fazia negócios com homens. Eles estranharam no começo, e aos poucos, foram se acostumando com isso.

O restante da história vocês sabem. Acompanharam à medida que cresciam a nossa volta. Creio que fizemos um bom trabalho e que graças ao meu envolvimento no dia-a-dia de Otávio, consegui cuidar de tudo, mesmo sem ele. Sim! Otávio foi um excelente parceiro!

Naquela família todos a admirava. Porém o brilho nos olhos das filhas, netas e bisnetas deixava claro o quanto Eva era querida e o quanto elas tinham orgulho de serem frutos de Eva. Embora, ouvissem todos os anos a mesma história, elas terminavam sempre fascinadas com a vitalidade daquela mulher quase centenária.

Carpe Diem

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