terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A vida banalizada - Tragédia em Santa Maria


Chegamos num ponto em que a vida passou a ser descartável para algumas pessoas. Situações tristes como esta que aconteceu na Boate Kiss, em Santa Maria poderiam ter acontecido em qualquer cidade do país. Existem centenas, milhares talvez de espaços como estes. Claro que o problema não é local ou a atividade em si. Afinal, uma danceteria é um espaço de lazer, assim como um circo, um teatro, um cinema ou um mesmo um bar.

A questão aqui é que casas irregulares existem em todos os lugares. Seja uma cidade universitária de médio porte, seja uma grande metrópole. Em maior ou menor proporção, o desleixo com a segurança chega a ser espantoso.

Meus queridos, tudo começa antes de se construir ou de se reformar. Primeiro, é necessário um projeto arquitetônico, além de projeto estrutural, elétrico, hidráulico e de segurança. Nesta fase, são apresentados os materiais adequados e seguros, as melhores práticas de construção e de segurança, as normas a serem seguidas e os prazos a serem obedecidos.

Interagindo com todos estes profissionais, estão os investidores, aqueles viabilizam economicamente a execução do projeto.  A grande maioria (com raras exceções) busca o menor custo possível (o que é justo), porém em detrimento da segurança e funcionalidade do projeto. A economia começa antes desta fase, como por exemplo, opta-se por arquiteto A, ao invés do B, que é mais “careiro”. Escolhe-se um empreiteiro, ao invés de um engenheiro (trabalhando o tempo todo em parceria com este) para conduzir a execução da obra e contrata alguém apenas para “assinar” a obra. Contratam-se não especialistas para elaboração dos projetos complementares e por aí segue.

Ora, uma vez que deixamos de levar em conta as instruções de projeto e recomendações de segurança, estamos correndo riscos, ou pior, estamos colocando vidas em risco.

E não para por aí. Vamos partir do princípio que tudo foi muito bem executado e a tal casa finalmente está pronta e uma lotação segura é autorizada pelos órgãos competentes para tal. E a informação deve sempre estar visível para o usuário e para a fiscalização. O que acontece quando um empresário excede em 10%, 20%, 50% esta capacidade permitida? Primeiro ele ganha mais dinheiro. Segundo, ele coloca todos em risco, no caso de algum acidente, como o ocorrido em Santa Maria.

Se, além de lotação máxima, você coloca pessoas sem a menor perícia para manusear artefatos que produzem faíscas ou descargas elétricas? Se, além disso, você não tem uma equipe altamente treinada para responder a situações de risco e emergência? Se você tiver mecanismos impeditivos para uma rápida evacuação de um ambiente? Ainda nas suposições, se, além de tudo isso, você te muito mais pessoas do que comporta o espaço em questão? 

A resposta para todas estas perguntas é simples: Tragédia anunciada. Uma hora, tal situação ocorreria. E tudo isso motivado por qual razão? Por causa do tal dinheiro. Por causa do lucro fácil, da busca pela vantagem financeira.

Por causa do ganho financeiro, economiza-se em materiais, em profissionais, em treinamentos, extrapola a capacidade máxima permitida de pessoas, trava-se uma saída de emergência e abre-se mão de mais de 200 vidas.

No final deste texto, você concorda que o título é mais que apropriado? Até quando consideraremos a vida, algo tão banal? Até quando concordaremos que a vida é menos importante que investimentos adequados? Até quando ignoraremos normas de seguranças?
E para evitar leviandade, nem vamos falar aqui, que neste caso, houve conivência dos órgãos públicos em conceder licenças indevidas, aprovar projetos falhos ou omitir-se de fiscalizar adequadamente. 

Porém, espalhado por este Brasil, há sim, aqueles que corrompem e deixam-se corromper. Seja para conceder uma licença, seja para aprovar um projeto irregular, seja par a ignorar um estabelecimento durante uma fiscalização. E são estes, que transformam a vida em algo banal. Até que um dia a vida deles ou de alguém ligado a eles sucumbe numa casa, liberada, ignorada por sua caneta. Talvez, este cidadão, seja ele corruptor ou corrupto, perceba que a vida não é assim algo tão banal, como parecia até aquele momento.

Se você que lê este texto, já esteve numa destas posições (corrompendo ou sendo corrompido), já fez vistas grossas, já deixou passar uma irregularidade que poderia por a vida de alguém em risco, sinta-se culpado. Pois se nada aconteceu ainda, um dia poderá acontecer. E creio que não há dinheiro no mundo que se sobreponha a uma vida tirada, graças a uma ação ou a falta dela, por parte de alguém que poderia sim evitar que tal fatalidade ocorresse.

Pouco importa as manobras que ainda farão para livrarem-se de suas responsabilidades, por que no fundo, cada um sabe exatamente o que fez ou deixou de fazer e neste caso, existe uma pena maior que a que qualquer homem é capaz de aplicar. Pouco importa se fulano diz que acionou ou não um sinalizador, ou que ciclano seguiu ou não as normas de segurança impostas. Cada um sabe exatamente, qual o seu grau de responsabilidade nesta tragédia. A consciência de cada um deles saberá realizar as devidas cobranças. Não foi um fato banal, um deslize. Foram mais de 200 vidas tiradas. Pouco importa os rumos da lei. O que está feito, está feito! Nada e ninguém mudarão este fato.

Um abraço fraterno a todos os pais, irmãos, demais parentes e amigos daqueles que graças a estas pessoas que consideraram a vida algo banal tiveram seus sonhos interrompidos.

A vida não é banal. E nunca será!

CARPE DIEM

Um comentário:

MARCUS MURYEL disse...

O FINAL foi simplesmente arrebatador Samuka, e penso exatamente da sua maneira, também, pouco importa, a justiça será feita e... Lá se foram mais de 200 vidas meu Deus... NOSSO MUNDO em si é carente de cuidados, de uma forma tão ampla e absurda para um mundo com seres que se dizem inteligentes e que acreditam em um, ou alguns, "Seres Superiores"...

Cara eu trabalho com segurança, e acredite, INFELIZMENTE existem pessoas que só estão interessadas "no que lhes interessa", quase como se fossem obrigadas, pessoas que também acreditam em "um Deus" como nós, e que aprenderam medidas de seguranças e mais, como nós, infelizmente se alienam em um "só acontece na TV ou com os outros" que... É LAMENTÁVEL A ALIENAÇÃO HUMANA... falta de holística, sustentabilidade conosco mesmo, que dirá com o que está em volta... Falta...

Nossos sentimentos...


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