segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Entrevista: João Ormond



Natural de Mato Grosso, criado nos arredores da nascente do Rio Paraguai gostava de ouvir as guarânias, polkas, toadas e modinhas cantadas pelos ribeirinhos.

Mais tarde, já morando na cidade grande, começou a pesquisar a música da fronteira oeste do Estado de Mato Grosso, juntamente com os cururus, siriris e outros folclores, nasceu a ideia de fazer na conclusão do seu curso na Universidade Federal de Mato Grosso, a História da música na região no período de 1930-50.

Historiador, João tocou por mais de dez anos na noite e participou de vários movimentos culturais pela região. Em função disso, no seu primeiro CD "Rio Abaixo" - "O oceano é como mãe a te esperar oh! Paraguai" - ele foi eclético usando viola nas modas, toadas e canções, e mostra o seu lado popular adquirido ao longo desses anos.

Com mais de 25 anos de estrada, João traz na bagagem, além da tranquilidade pantaneira e o amor pela viola, mais 7 discos lançados ao longo destes anos de trabalho. 

Com o show "Quariterê" agendado para domingo próximo, dia 02 de setembro de 2012, as 10 da manhã no SESC Campinas, dentro do Projeto Viola & Café, vamos conhecer um pouco mais deste moço lá do centro-oeste do Brasil nesta entrevista exclusiva para o "Sempre tem algo Acontecendo": 

Samuel: Como foi e onde foi seu início e carreira?
J. Ormond: Meu início de carreira se deu em Cuiabá, cantando na noite.

Samuel: Quais suas influências na viola?
J. Ormond: Sempre ouvi de tudo. Desde Tião Carreiro, Pena Branca e Xavantinho, passando por  Almir Sater entre outros.

Samuel: Qual a sua relação com o Cuiabá e a Chapada dos Guimarães?
J. Ormond: Cuiabá, eu adotei como minha cidade. Na verdade sou nascido em Alto Paraguai, também no MT, que fica há cerca de 150km da capital. Pela Chapada, nós temos um carinho muito especial.  Por ser uma cidade agradável e acolhedora, sempre que podemos estamos por lá para admirar a beleza daquela região.

Samuel: O que o motivou a vir morar na região de Campinas?
J. Ormond: Queria mostrar ao Brasil o som da minha região (pantaneira). Primeiro morei em Campinas por quase um ano e em seguida me transferi para Jundiaí, que fica bem posicionada, entre a capital e Campinas.

Samuel: Como você mantém o vínculo criativo com o Pantanal Norte, apesar de viver a maior parte dor tempo em São Paulo?
J. Ormond: Sempre que posso vou para Cuiabá, onde mantenho uma residência até hoje.Além do mais, toda a minha família está por lá. O mágico é que sempre que vou, aparecem novas canções.

Samuel: Quantos shows pelo Brasil, você faz em média por ano? 
J. Ormond: Entre 50 e 60 por ano.

Samuel:  Quantos trabalhos (discos) tem até agora e quais são eles? 
João Ormond: Até agora são sete CDs lançados. São eles:
Rio Abaixo (1997), Capins e Riachos (1999), Reduto de Violeiro (2001), Viola Encantada (2004), Pantanais (2007), Muito Longe Rio Acima (2009) e Quariterê (2012).
 
Samuel: Como foi trabalhar como o mestre Pena Branca, no álbum Viola Encantada?
J. Ormond: Foi maravilhoso! Pena Branca foi uma das pessoas mais simples que conheci até hoje nessa estrada violeira. Paciente, honesto e parceiro de primeira qualidade.
 
Samuel: De todos os seus discos, Quariterê se destaca por seu  “registro histórico” de uma personagem forte da sua região. Você já conhecia a história de Tereza de Benguela? 
J. Ormond: Conhecia sim. Deste os tempos da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso), onde me graduei em História

Samuel: Teve acesso a documentos/informações do Quilombo Quariterê?
J. Ormond: Tive sim.

Samuel: Como tem sido a resposta do público a este seu último disco? 
J. Ormond: Muito boa. As pessoas sempre querem saber o motivo do nome. Sempre explico. Afinal, é uma oportunidade para apresentar essa figura tão marcante da resistência quilombola.
 
Samuel: Voltando um pouco no tempo, como foi criar a belíssima “Reduto de Violeiro” em parceria com Teco Seade? Previram que seria tão especial?
J. Ormond: O Teco é um grande poeta e parceirão.  Logo que mostrei a música para ele, sentamos e rabiscamos a letra. A canção surgiu muito rapidamente e é emocionante até hoje. Muitas pessoas cantam ela nos shows. Acabou ficando bem conhecida depois da realização de um belo clip feito pelo programa "Terra da Gente" da EPTV de Campinas.

Desde já agradecemos a disponibilidade do compadre João Ormond em nos presentear com esses dois dedinhos de prosa. 

É isso aí vale a pena conferir!

Expediente: Show Quariterê - Projeto Viola & Café
Quando: 02/09/2012 - Domingo - A partir das 10 da manhã
Onde: SESC Campinas - Rua Dom José I, 270/333 - Bonfim - Campinas - (19) 3737-1500
Entrada franca

CARPE DIEM!


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Os abismos de cada um


(by Caio Fernando Abreu)

Outro dia deparei-me com essa frase do Caio Fernando Abreu, um dos principais escritores e pensadores dos tempos atuais. Contundente, profundo e com uma capacidade incrível de compreender o homem e a mulher de hoje.

A provocação da pergunta é muito válida. Afinal, quem tem o poder de salvar o outro de seus próprios abismos?

O salvamento, para o salvador, destaca a sua superioridade. Ele é capaz de livrar alguém das mazelas que este mesmo causou. É a capacidade de simplesmente desfazer aquilo que alguém fez a si próprio. O salvador acaba se traduzindo num ser pra lá de arrogante.

Na vida, cada um colhe aquilo que planta. Atrai as pessoas que deseja atrair. Vivencia o resultado dos problemas que foi capaz de criar. Olhando por este ângulo, é pretensão demais de uma pessoa que se acha no direito de salvar alguém do resultado de suas boas ou más ações.

É óbvio que podemos oferecer apoio, podemos dar um conselho, podemos estar ao lado. O que não é possível, na prática, é agir pelo outro. Uma coisa é você indicar um caminho, outro é fazê-lo.

É como um motorista perdido procurando determinado endereço. Quando você é abordado por um destes, você aponta a direção ou entra no carro deste, muda sua rota, larga seus afazeres e leva ele no endereço que você pode simplesmente indicá-lo?

Percebe. Estamos aqui para indicar caminhos e não para fazer a viagem alheia. Aliás, viagem este que você nem sabe que o outro quer sua companhia. No fundo, ele quer apenas a indicação. O resto é com ele. Por que a conquista é dele.

Salvar alguém dos seus próprios abismos tem m quê de assistencialismo. De superioridade. De pequenez do outro. É como se você falasse para o outro:
"Esta me vendo aqui? Fui obrigado a vir só pra tirá-lo desta situação que você se colocou e infelizmente se mostrou incapaz de sair sozinho."

Quando nos salvamos dos nossos próprios abismos, saímos mais fortes. Quando alguém nos tira, saímos mais inseguros e dependentes.

CARPE DIEM

domingo, 19 de agosto de 2012

Um tanto assim de saudade

A saudade é uma estrada
Que tem flor e tem espinho
Pode ser dura ou  bela
Cada um  faz seu caminho
Seguimos sempre adiante
Mesmo que esteja distante
Lembramos do nosso ninho

A lembrança é como unguento
Pra curar ferida nova
É olhar velho retrato
É amor que se renova
É caminhar no passado
Carta  em papel amassado
Saudade que se  comprova

A saudade só nos prova
A nossa antiga existência
Um velho banco de praça
Um tempo de inocência
Estrada de chão batido
Um amor adormecido
No fundo da  consciência

CARPE DIEM

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O menino meio ave


Gavião Real -  Harpy Eagle (Harpia harpyja) na Serra das Araras (MT)
Ao meu amigo Ricardo Casarin, o menino meio ave

Aquele menino era meio mato, meio árvore
Era quase todo bicho

Na verdade ele gostava de ter asas
Voava paradinho no chão
Da sua lente descortinava cores
Do seus olhos vertia pios e cantos
Da sua boca brotava o silêncio
Muitas vezes ele foi confundido com o chão
Outras vezes foi visto misturado as raízes das árvores
Pessoa pra ele era bicho estranho
Preferia o esgueirar da onça
O bater de asas do Gavião Real
A molecagem dos macacos
De barulho preferia o da queda da cachoeira
Um dia pensaram que ele era leito
Depois concluíram que ele era margem
Desafio bom era subir serra
Descida parecia algo fácil, mas castigava os joelhos

"Pés de mato" enraízam quando demoram por lá
Bom seria levar um tiquinho de mata fechada para manter-se vivo
Um canto de passarinho
As penas do seu penar

Aquele menino, era meio mato, meio árvore
Era quase ave

CARPE DIEM

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Entre uma viagem e outra

Avião voa, mas não bate asas
Aeroporto é um porto sem água
No céu não tem estrada, mas tem congestionamento
Avião é um encurtador de distâncias
O perto, com turbulência, parece não chegar nunca
Passageiro novo vê até assombração
Engraçada mesmo, é a lista de prioridades no embarque
Daqui há pouco, o voo só tem prioritários
E quando o trajeto do  embarque a aeronave é feito de ônibus
O que embarcou prioritariamente no ônibus, embarcará por ultimo no avião?
No fim todos viajam!
Prioridade não deveria ser para quem  realmente precisa?
Turbulência  é  buraco na estrada do céu
Lá de cima a terra é verde e azul
Tem passageiro que não gosta de prosa
Outros gostam até demais
Falta criatividade no serviço de bordo
Os sotaques das comissárias de bordo são uma atração à parte
Entre uma viagem e outra
Da pra descobrir muita coisa!

CARPE DIEM




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Bons ventos do Tocantins

Cachoeira da Roncadeira (Taquaruçu/TO)
Tocantins do Capim Dourado
Dos rios que abraçam a terra
Do artesanato bem trabalhado
Do povo que aqui encerra
De índios mortos em guerra
Dos quilombolas guerreiros
Das cantigas encantadas
Moças de saias rodadas
Dos caboclos catireiros

Tocantins da plana Palmas
Ao incrível Jalapão
Dos causos com suas almas
Da terra que dá o pão
Dos Krahôs e os Karajás
Tocantinense da paz
De Genésio Tocantins
Á Juraildes da Cruz
Do céu claro e sua luz
Do extremo Araguatins

Genésio Tocantins, a Karajá Narubia Werreria e Samuel Quintans
Tocantins das cachoeiras
Das matas e do cerrado
Estrelas namoradeiras
Da Lua do apaixonado
Do calor, da ventania
De uma terra de magia
Dos tambores encantados
Da beleza de um povo
Das tradições e do novo
Dos segredos bem guardados

CARPE DIEM

sábado, 11 de agosto de 2012

Espírito Olímpico: Lições para o futebol brasileiro

Imagem: Terra
Para quem assistiu a partida de futebol jogada pelo Brasil e em seguida assistiu a partida fantástica destas meninas do vôlei deve ter pensado que eram atletas de países diferentes.

A impressão foi correta. São países diferentes. Enquanto nossos boleiros vão para os Jogos Olímpicos com um ar de superioridade, parecendo que estão cumprindo uma obrigação (e não, recebendo uma honra) os demais atletas, e aqui incluo todos, de todas as modalidades amadoras honram cada minuto que participam dos Jogos. 

Aqueles que não se classificam para as finais em suas modalidades, choram, sentem vergonha, sofrem por ter desperdiçado tantos anos de treinamento, porém percebem, lá no fundo, que deram o seu melhor e que numa Olimpíada todos são vencedores.

Aqueles que chegam perto, numa final Olímpica, num bronze, prata ou no tão desejado ouro, sentem a alegria de estarem entre os melhores do mundo.

Uma das lições que fica para a nossa Seleção de Futebol Olímpica é que ela precisa perceber mais a importância de estar na maior competição esportiva do mundo. E a Copa do Mundo de Futebol? Amo futebol! Peço desculpas aos desavisados. Objetivamente não passa de um campeonato de uma categoria só. Nem se compara com os Jogos Olímpicos.

Você acha que o Campeonato Mundial de Judô, de Vôlei, de Atletismo vale mais que uma Olimpíada para um atleta? Pergunte para qualquer um deles, em qualquer modalidade. Antecipo a resposta de todos. Não! Nem se compara. Nem para o maior atleta de um país em sua modalidade.

Imagem: Terra
Ao futebol brasileiro fica a lição que é necessário planejar mais. É necessário vibrar mais. É necessário contar com atletas de verdades e não profissionais que visam apenas aparecer e ganhar dinheiro. fama e patrocínio. Muito dinheiro. Eles perderam sim. Mas logo mais, voltarão para seus clubes agradecendo a viagem que fizeram e agradecendo, intimamente que o "sacrifício" acabou. Sim, para muitos ali, é um sacrifício estar ali. Para muitos, deste time, é até desprezível ganhar uma medalha de prata numa Olimpíada. Para muitos, é melhor ser campeão estadual por seu clube.

Nosso técnico, enquanto nosso time se perdia em campo, se preocupava mais com a arbitragem e não com uma falha grotesca de um dos nossos laterais. Enquanto nosso time "esquecia" de marcar um centroavante, ele reclamava de uma falta. Prefiro nem falar de nosso craque inventado pela imprensa que desesperadamente deseja construir um ídolo, a todo custo.
 

As lições que ficam à nossa seleção de futebol são "humildade, raça e respeito aos seus torcedores e adversários"

E pensar que teve até churrasco após a classificação para a final. Esse time é uma festa da arrogância...

Que tal olharmos melhor para as demais modalidades esportivas do nosso país. Também quando não for tempo de Olimpíada? Nós podemos mudar isso. Nós podemos!

CARPE DIEM

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Espírito Olímpico - uma crônica

Fala-se muito sobre como o Brasil está se preparando para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Questiona-se estrutura, gestão dos investimentos, prazos e tantas outras situações práticas.

Assistindo aos Jogos de Londres 2012 e tantas outros Jogos que já se passaram acredito que deveríamos nos preocupar mesmo com outro tipo de preparação: Aquela ligada ao "Espírito Olímpico", ou seja o espírito desportivo.

A cada medalha que disputamos e principalmente a cada medalha que perdemos, ora por pouco, ora por muito, o que vimos nas redes sociais foi um bando de pessoas hostis  manifestando-se contra os atletas que obtiveram o "insucesso(?) Olímpico".

Arthur Zanetti foi ouro. Sarah Menezes também. Seria apenas eles os campeões do Brasil e merecedores dos aplausos? 

Vale lembrar que uma Olimpíada não é feita apenas das competições que acontecem durante os jogos. Existem fases eliminatórias que antecedem os Jogos. Isso acontece em todas as modalidades. E cada país avança com seus atletas a medida que supera outros tantos. 

Numa Olimpíada estão os melhores de todas essas qualificações anteriores. Só por essa situação, cada atleta de nosso país já é um vencedor. Está no seleto grupo de atletas que foram a uma Olimpíada.

Um cai, outro fracassa, outro refuga, outra deixa escapar uma vitória certa e por aí vai. Uma lista de pequenos insucessos ganham super exposição e atletas sofrem com a incompreensão de muitos que se negam a compreender que uma Olimpíada é antes de mais nada, uma celebração esportiva. É a reunião dos melhores do mundo competindo de forma digna e dedicada. Entre oitos atletas sempre terá um primeiro colocado e um oitavo. Fato. Valeria menos este que se posicionou em último? Para muitos brasileiros, sim.

Fico imaginando nossos atletas disputando uma Olimpíada em casa. Certamente muitos "fracassarão (?)" e certamente muito serão humilhados publicamente, por ignorantes que não entendem que é uma honra estar ali. É uma honra se ver representado por alguém que abriu mão de ser um sujeito comum. Ele preferiu abraçar a disciplina e viver num mundo de competição. Onde o vencedor e o perdedor se evidencia a cada competição. Mas ele é um esportista  e consegue conviver com o fracasso. Tira dele o combustível para melhorar.

Generalizações à parte, o Brasil precisa aprender a aplaudir melhor "as derrotas" de seus atletas. Certamente, ninguém melhor do ele mesmo, pra saber o quanto dói uma derrota, depois de tanto esforço, sonho e trabalho. Precisamos fazê-lo sofrer mais?

Parabéns a todos os atletas que ficaram pelo caminho, que quase chegaram lá ou mesmo que ficaram longe de chegar. Somos todos Brasileiros. Cada um de vocês, sabe bem, o quanto se esforçou para estar aí, nos representando. O quanto lhe faltou de apoio, de tradição esportiva, de investimento social e de compreensão de suas necessidades. Só cada um de vocês sabe o quanto é difícil ser um atleta nesta nosso país recordista em corrupção.

Parabéns aos medalhistas. Apesar de todas as limitações enfrentadas, igualmente aqueles que fracassaram, vocês conseguiram o impossível. Saírem vencedores.

Até quando esperaremos para termos o esporte aplicado e valorizado nas escolas, colégios técnicos e universidades? Até quando dependeremos de dedicados e talentos individuais? Até quando teremos pessoas desprovidas de espírito olímpico chacoteando, humilhando, agindo de forma preconceituosa em nossas redes sociais?

Será que estamos prontos para a Rio-2016?

CARPE DIEM





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