segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Trilogia de Natal: III - Nasce uma família!


“Papai do Céu, hoje é um dia muito importante na minha vida. Queria muito que essa família que virá conhecer o Lar seja abençoada e tocada por você. Que ela goste de algum de nós, que nos ache legal e que também  sejamos feliz perto dela. Papai do Céu, eu sei que este ano vieram muitas pessoas aqui e nunca me escolheram. Alguns dos meus amigos tiveram um pouco mais sorte do que eu.Outros esperam como eu. Mas eu queria que soubesse que sempre acreditei em você e que nesta manhã tudo será diferente. Amém”

Paulo era um menino maduro, para os seus oito anos. Foi com essa oração que ele levantou de sua cama e com muita esperança de que seu sonho se realizasse. Aquela era uma manhã diferente. Seria o último dia de visitas, antes do Natal. Algumas famílias se fariam presentes no abrigo. Nem todas para procurarem um filho. Muitas eram voluntárias de Natal. Faziam as vezes de padrinhos. 

Ele mesmo tinha um casal de padrinhos muito legal. Seu Joaquim e Dona Maria, um casal de velhinhos que tinha filhos e netos que moravam em outro país. Solitários, ambos encontraram no abrigo, a alegria de compartilhar o amor que tinham. Acabaram se apegando a Paulo. Só não o adotaram por que o juizado considerou a idade deles avançada para serem pais. Mas ficaram amigos e tornaram-se padrinhos. Paulo os chamava de “Vô Quim” e “Vó Maria”. Eles gostavam de serem considerados assim. Sempre que podiam, visitavam Paulo e contavam boas histórias para o pequeno, que ficava maravilhado com tantas coisas que “Vô Quim” conhecia sobre o mundo.

“Hoje será um dia muito especial para nós. Iremos, pela última vez neste ano, conhecer um visitar um lar de crianças e desejamos Pai Amado, conhecer nosso filho nele. Sabemos que muitos abrigos, lares e instituições foram visitados este ano. Que ainda não sentimos o amor que precisamos sentir por nenhuma criança que visitamos, mas acreditamos que hoje será diferente. Por isso, esperamos Pai Amado, que saibamos discernir e sentir o nosso filho hoje. Que Assim Seja!”

Foi com essa prece que José Luiz e Maria Clara terminaram seu café da manhã. De mãos dadas e olhos fechados, era visível a emoção que tomava conta daquela mesa. Uma lágrima amorosa desceu pela face de Maria Clara. José Luiz enxugou-a com as com uma carícia suave. Enquanto sua mão deslizava pelo rosto de Maria Clara, ele disse:

- Sinto algo diferente hoje, Maria. Temos que estar sintonizados e atentos aos sinais de nosso Pai Amado. Nossa longa espera termina hoje.

- Que assim seja José. Que assim seja! –Respondeu ainda chorosa, Maria Clara.
O Lar que fora indicado pelos agentes de adoção ficava há alguns quilômetros da cidade em que viviam. Uma pequena cidade da região. Não era tão longe. A demora em chegar tinha muito mais a ver com a ansiedade deles do que com a distância geográfica que os separava do destino.

“Lar Crianças de Luz”, ambos leram na placa. Entreolharam-se e riram com nome tão sugestivo. Sim. Só poderiam ter crianças iluminadas naquele pequeno lar. Foram recebidos, na entrada da Casa, por Dona Madalena (Mãe Madá, como pediu para ser chamada), que deu as primeiras instruções e preparou o casal para a visita.

- Meus queridos, aqui é um Lar que há muito tempo abriga crianças. Temos uma proposta diferente e lidamos com crianças maiores. Aquelas que desafortunadamente, passam do “melhor tempo” para serem adotadas. Aqui, valorizamos suas qualidades, elevamos sua auto-estima e sim, vivemos como uma grande família. Essas crianças, meus queridos, já tiveram muitos dissabores e decepções, para viverem num mundo, onde o amor não seja possível.  Diria a ambos, que são crianças especiais e de luz. O nome da casa não por acaso. Fomos intuídos para escolhê-lo. Por isso, peço que sejam amorosos e tratem todos com muito amor e respeito. Se o filho de vocês estiver entre nós, saberemos.

Ouviram em silêncio, apenas assentindo com a cabeça. Logo estavam passeando pela casa. Eram vários ambientes. Oficina de Artes, Comida com arte, Sala de jogos, Briquedoteca, Biblioteca, Sala do Sono, Sala do Aprendizado e o Pátio das Brincadeiras! Naquela manhã, a movimentação no Pátio era grande. Os padrinhos estavam distribuindo presentes aos seus afilhados do coração e a criançada estava eufórica.

Numa das últimas mesas do Pátio das Brincadeiras, estavam um casal de velhinhos e um menino conversando alegremente. Ele ria e o homem contava alguma história que causava este riso no menino. Aquele garoto era um dos maiores do Pátio. Maria Clara olhou para José Antonio, que como que se pressentisse o que ela queria falar, responde:

- Amor! Combinamos que queríamos uma criança um pouco mais nova. Abrimos mão de buscarmos apenas recém nascidos, porém limitamos a idade, lembra? Como conseguiremos educar uma criança mais madura, meu anjo? Todos nos alertam que é mais desafiador, que vem com vícios de comportamento e que podem ser um problema em casa.

- Eu não disse nada José. Ele é especial. Veja como sorri. Vamos conhecê-lo. Sei que nos indicaram outra criança deste abrigo. Sei que a outra está dentro do que buscamos como “padrão de idade”. – Ela disse as palavras finais, com ênfase e José Luiz sabia que quando ela fazia isso, era para provocá-lo, em seus padrões.

À medida que conversavam, caminhavam quase instintivamente em direção ao trio animado. Mãe Madá sabia o que estava acontecendo e diminuiu o passo. Sem que percebessem deixou-os a sós. Em poucos segundos, lá estavam. Maria Clara e José Luiz, bem diante da mesa do trio. “Vô Quim” olhou para o casal e convidou-os para juntarem-se a eles:

- Meus filhos, sentem-se conosco. Há mais uma cadeira logo ali. Pegue pra sua esposa, meu filho. Juntem-se a nós e escute essa que vou contar pro Paulo. Essa é uma boa história! Desculpe-me a falta de educação. Sou Joaquim, “Vô Quim” como o Paulo me chama. Esta é minha esposa “Vó Maria” e este é Paulo, nosso neto e afilhado.

- Muito prazer – respondeu o casal em coro – Pensava que aqui era um lar de crianças que não tinham mais família por perto. Que bom que Paulo tem avós tão queridos. Ah! Que cabeça a minha. Somos Maria Clara e José Luiz – completou Maria Clara, enquanto José buscava mais uma cadeira para juntar-se ao grupo.

- Mas é Maria Clara. Somos padrinhos e avós do coração do Paulo. Desde que ele chegou aqui, que assumimos esta missão tão querida.

Paulo observava aquele casal e uma emoção diferente começou a tomar conta do seu coraçãozinho. Mal falava, observando o casal, enquanto ouvia mais uma história do seu avô. Pela primeira vez, estava desatendo. A voz de “Vo Quim” estava distante e apenas aquela mulher e aquele homem brincavam na sua mente infantil. São eles, pensou e chegou a sussurrar enquanto pensava.

- São eles o que, meu querido? – Provocou “Vó Maria”, a única a perceber o breve sussurro e já pressentindo o que se passava.

Naquela manhã, os cinco não se desgrudaram. Paulo apresentou todos os espaços. Sempre de mão dada com “Vô Quim” e falou de tudo que vivera em cada lugar. Era ele o contador de histórias naquele momento. Falou de coisas que nunca falara com ninguém. Falou de como chegou naquela casa, de quanto sofreu com seus pais que bebiam muito, de como sentia-se triste quando algum amigo chorava por sentir-se rejeitado por algum casal. Falou de como o lar era acolhedor e como Mãe Madá era generosa e brava também, quando eles aprontavam. Falara rindo sobre a braveza de Mãe Madá.

- Ah! Meu Filho! Que história linda essa sua. – Respondeu automaticamente quando Paulo concluiu toda sua história e apresentação do lar. – Você tem quantos anos Paulo?

- Ah! Tia Maria Clara! Sou bem velho! Já tenho 08 anos. – Respondeu Paulo com um riso largo no rosto
.
- Posso lhe dar um abraço, Paulo? – Disse Maria Clara, já com os braços abertos e prontos para abraçá-lo. Nem esperou resposta e envolveu o garoto em seus braços.

Ali ajoelhada, sentiu um amor incrível tomar conta do seu corpo e de seus olhos verteram lágrimas amorosas. Com Paulo envolvido em seu abraço olhou para José Luiz, que tinha os olhos marejados e como se convidado tomou parte daquele abraço. Agora em três chorosos num abraço. Paulo sem entender muito a razão, começou a sentir seus olhos molhados e começou a abraçar mais forte Maria Clara, enquanto chorava silenciosamente. Em pé, “Vô Quim” e “Vó Maria” abraçaram-se, enquanto observavam aquela cena tão bela e nem precisaram trocar palavras. Paulo tinha um lar, finalmente.

- Filho querido! Vamos para casa? Você concorda José? Você está sentindo isso? – Disse Maria Clara, emocionada e com voz de súplica.

- Paulo, meu querido, você quer ser nosso filho? Quer conhecer nossa casa? – Falou José Luiz, dirigindo-se a Paulo. Claro que ele já concordava com Maria Clara. Queria saber se Paulo os queria como pais.

O abraço de Paulo serviu como uma resposta positiva. Alguns dias se passaram. Período de adaptação, visitas da Assistente Social, burocracias, controles e muitas expectativas.

A alegria que Paulo sentiu a ver-se em seu próprio quarto, ou na mesa de café com seus pais, ou no quintal brincando com seus novos amigos e primos não caberia em papel ou tela alguma. Era dele. Estava dentro dele. José, Maria e Paulo finalmente tinham uma família.

E foram gratos por isso.

CARPE DIEM

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...