quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Trilogia de Natal: I - Nasce um sonho

Paulo acordara agitado mais uma noite. Tinha sido assim nos seus últimos 4 ou 5 anos, nestes dias que antecediam ao Natal. Inexplicavelmente, ele sentia saudade de uma família que nunca teve. Ou pelo menos se teve, não se lembrava.

Com seus quase 8 anos, vivendo num lar para crianças, suas chances de ter uma nova família, segundo o pouco que sabia, eram quase zero.

Paulo chegara ao lar, aos dois anos de idade, vítima da violência alcoolizada de seus pais. Era um menino esperto e trazia no olhar um brilho especial. Em poucos dias cativou a todos no abrigo, com seu jeito sorridente e otimista. De vez em quando era pego pensativo num canto de parede ou em sua caminha. Mas era uma criança! E esta introspecção durava apenas alguns minutos.

Os anos se passaram. Paulo cumpria novos ciclos, novos rituais. Bolos, festinhas internas, abraços dos colegas de adoção, dos monitores, das cozinheiras e de todos que ali compartilhavam com ele, da mesma esperança. Ter um lar! Não que ali não fosse um lar. Era sim e com muito mais amor do que quando ele vivia na casa dele. Nunca mais tomara uma surra. Nunca mais fora xingado de inútil, de cruz ou de atraso de vida. Tudo era muito bom, porém faltava-lhe alguém para chamar de mãe, de pai, de irmão. Faltava-lhe avós! Faltava-lhe espaço.

Por muitas vezes, Paulo viu casais chegando no abrigo e logo percebeu que ser um bebê, de pele clara e sorridente facilitava muito encontrar um lar. Percebeu que quanto mais novinho e mais perfeitinho, mais rápido iria para casa. Aliás, ficava impressionado como estas crianças eram disputadas. Parecia aquelas taças dos campeonatos de futebol, que ele assistia na TV. Todo mundo queria!

Naquela noite, em que ele acordara atordoado pelo sonho de ter um pai, segurando sua mão, contemplando uma linda paisagem ele resolveu fazer um pedido. Apenas um. Não queria brinquedos, festas, Papai Noel ou coisa que o valha. Ele queria apenas uma coisa: Uma família!
"Papai do Céu! Meu nome é Paulo. Tenho quase 8 anos. O que vou lhe pedir eu sei que é quase impossível. Mas como sempre a Dona Veridiana diz que pra você nada é impossível, resolvi pedir neste Natal, uma família de presente. Eu prometo, Papai do Céu, ser um bom filho, ajudar nas tarefas de casa, ser amoroso com minha nova mamãe e serei grato a esta família que me acolher, dando o meu melhor e farei tudo para não dar trabalho para ninguém. Por isso, peço com todo minha força, me ajude a realizar este pedido e meu maior sonho. Amém!"

Como que envolvido por uma força bondosa, Paulo sentiu-se abraçado, tão logo terminou sua oração e voltou a deitar-se. Aos poucos o sono tranquilo tomou conta de seu corpinho esperançoso.

O resto da noite, em que dormiu, foi povoado por imagens belas, de sua família futura e sonhada. Viu-se brincando, passeando e abraçando sua mamãe. No seu sonho, ela era morena clara, pele bonita, cabelos negros e brilhosos e uns olhos, que mais pareciam os seus. No seu colo, ele deitado, sentia as mãos dela brincando nos seus cabelos, num cafuné gostoso e tranquilizador. No colo dela ele se viu adormecido. Foi neste colo que ele despertou logo cedo, ao toque do sino do abrigo e da presença amorosa da monitora Júlia, que sempre era a primeira pessoa que via, perto de sua cama.

- Bom dia, Paulo! Que cara boa! Estava num sonho bom, não é mesmo? - Disse Júlia, com voz suave e amorosa.

Paulo não respondeu. Apenas sorriu, ainda entorpecido pelo sonho bom...

CARPE DIEM

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