segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pais e fihos

Meus pais foram um pouco de tudo. Minha mãe trabalha muito desde o dia que me entendo por gente. Meu pai sempre foi o lado criativo do casal (ou seria da dupla?). Ambos do interior nordestino. Ele do Crato, no Ceará. Ela de Monteiro, na Paraíba. Ela, filha de sitiantes. Ele, filho de um violeiro repentista e uma exímia professora de língua portuguesa, também poetisa. Ela menina e cheia de sonhos. Ele quase dez anos mais velho que ela, com um casamento nas costas, alguns filhos e muita boemia na bagagem.

Viveram juntos por 20 anos e tiveram quatro filhos. Minha irmã mais velha, que partiu quando eu tinha apenas um ano de vida e ela três. Depois viria minha segunda irmã, dois anos mais nova e minha irmã caçula, onze anos mais nova que eu.

De todos os filhos, talvez eu seja o que mais tenha herdado características dos dois, de maneira mais equilibrada. Gosto do trabalho, da dedicação, da responsabilidade do dia-a-dia, como minha mãe e gosto da arte da poesia, do texto, dos sonhos, como o meu pai. A poesia corre no meu sangue, como corre nas veias dele, como correu no sangue dos pais dele. O gosto pelo trabalho, pela dedicação ao outro, reside em mim, como faz morada na alma de minha mãe e também nos meus avós, pais dela.

Meus pais foram de artistas mambembes a empresários bem sucedidos. De operários a líderes de um programa de rádio de grande audiência no sertão nordestino. Lembro que tinham um programa chamado “Eu, você e os astros”, onde falavam do cotidiano, faziam previsões astrológicas, aconselhamentos pessoais e claro um pouco de poesia. Meus pais eram queridos por seus ouvintes, viviam ganhando presentes dos agraciados por suas previsões e conselhos. Minha mãe tinha carisma e simplicidade. Meu pai tinha o domínio da palavra e a criatividade potencializada. Ambos formavam uma bela dupla. Ela o amava. Ele também. Só que do jeito dele.

Sempre fui fã da minha mãe. Fã incondicional. Até hoje me emociona sua história de vida. Fui seu companheiro de jornada desde que me lembro por gente. Minhas recordações mais remotas são lá dos meus 2 anos de idade. Lembro de sua luta. De suas lágrimas. Lembro do seu amor e de suas perdas. Chorei muito com ela. Chorei muito sozinho, sem ela, por amor a ela. Vivi perto e longe, quando fomos obrigados nos separar e tive que viver com meus avós, lá na Paraíba, enquanto eles faziam a vida em São Paulo.

Quando eu era menino, me encantava a arte do meu pai. Nossa casa cheia de violeiros repentistas, o improviso corria solto, rimas e versos fluíam. As cantorias. A elegância do meu pai. Sim. Ele era um sujeito elegante, de boa fala, seguro. Amigo e enquanto viveu conosco, um pai muito divertido. Se o trabalho duro de educar cabia a minha mãe. O convívio leve coube a ele. Jogávamos alguns jogos de tabuleiros o tempo todo. Brincávamos de rimas e fazíamos coisas simples. Ele chegava, às vezes de madrugada, de suas cantorias e fazia questão de nos acordar, para nos abraçar e beijar. Queria nos dizer que nos amava. Eu, embora caindo de sono, achava aquilo muito bonito da parte dele e acabava acordando e ficando um pouco ali, ouvindo suas histórias. Ele sempre me chamou de “nêgo veio”. E eu era apenas um menino. Ainda hoje ele me trata assim, na brincadeira: E aí Samuca! Meu “nêgo veio”.

Por que compartilho essas coisas com vocês hoje? Por que somos um pouco dos nossos pais. Somos as experiências que trazemos. E vivemos num tempo, diferente do que eu vivi e talvez você também tenha vivido. Nos dias de hoje, os filhos valorizam menos essas heranças, respeitam menos os dons recebidos dos seus pais e deixam que a vida passe ligeiro, num teclado de computador ou de um celular de última geração. Filhos dizem menos “eu te amo” ou “me orgulho do que sou”, graças aos seus esforços em transmitirem valores. Vivemos num tempo, onde um filho cobra obrigação de um pai e jamais se sentem gratos, por serem acompanhados. Ah sim! Sentem-se sim, mas em silêncio, do jeito deles, como gostam de falar, quando questionados: “Ah, pai! ou Ah, mãe! Eu gosto, só que do meu jeito!”

Amanhã, tudo pode parecer mais claro. Por que filhos um dia, tornam-se pais. Aí sim! O desafio será puxar pela memória coisas que não foram tão sentidas ou valorizadas quando deveriam ter sido...

Bem, mas isso é assunto pra outra prosa.

CARPE DIEM

Um comentário:

Luciana Dimarzio disse...

Lindo texto! Parabéns! Beijos

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