sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sexta-feira 13 - Um conto.

Tinha algo estranho no ar. Ele sentia isso. Ele ia ter que fazer uma entrega justamente naquele dia, uma sexta-feira e ainda por cima dia 13. Era demais pra ele. Demais mesmo!

Normalmente ele se programava ao máximo para estes dias. Evitava sair da cidade. Mais ainda, evitava sair de casa. Ficava bem quieto, no canto dele. E ficava mais cismado ainda quando a data coincidia com uma noite de lua cheia. 

Joaquim era o sétimo filho de uma família numerosa. Só homens. Treze no total. Apenas oito permaneciam vivos. Ele era grudado ao caçula. dois anos mais velho apenas e resolveu sair de casa logo cedo. A vida na roça não era pra ele. De lá ele trouxe apenas o amor da mãe, a dureza do pai e as crendices e rezas que aprendera com a avó Quitéria.

Na cidade era conhecido como Joaquim benzedor ou Nhô Joaquim, como as crianças o chamavam. 

Como ele mesmo gostava de dizer, nas horas vagas ele tinha um comércio de "vendê bestera" pro povo. De agulha a colher de pedreiro, passando por comida a granel e no atacado, ele tinha de tudo. Queria achar uma coisa na cidade, era lá, no Armazém "Gai de Arruda e Pimenta" (era assim mesmo que estava escrito a palavra galho, na placa do seu armazém). 

Joaquim abria o Armazém até de domingo, como costumava dizer. Mas tinha uns dias em que ele não abria de jeito nenhum. Sexta-fera Santa, Páscoa, Tiradentes, Dia de Nossa Senhora, Dia de "Padim Cícero", Dia de Cosme e Damião e Sexta-feira 13. Podia chover canivete, que ele não abria estes dias.

As coisas se complicaram pra Joaquim quando ele resolveu colocar telefone no local. Aí danou-se tudo. Por que o povo fazia pedido por telefone. E foi isso que aconteceu. Uma família importante da cidade vizinha ia receber um povo da capital e fez um pedido grande pra Joaquim. E o fazendeiro só comprava as coisas com ele, até para os empregados. Bem que Joaquim, na sua simplicidade tentou argumentar com o fazendeiro:

- Meu patrão, o senhor sabe que não lhe nego nada! E o fazendeiro foi logo dizendo assim:

- Joaquim, nem me venha com essa bestagem de sexta-feira 13. Quero minhas coisas aqui, por que vou ter cantoria na fazenda e vem um povo da capital. E não é das capital daqui não. É de São Paulo, visse? Se tu não me entregar essas coisas até amanhã a noite eu mesmo vou aí e acerto as contas contigo. Nem mando meus homens.

Sem remédio pra situação ele se viu preocupado na hora de sair de casa. Já tinha acordado esquisito. Botou as coisas na caminhonete velha e foi-se embora pra cidade vizinha. Era umas três da tarde quando saiu. Planejava está de volta antes de escurecer. Fez umas rezas, colocou uma cruz e alho no painel do carro, em caso de necessidade e seguiu viagem.

Não tinha andado nem meia hora de estrada quando ouviu um barulho alto vindo lá de fora. Gelou na hora! O carro perde o controle e ele percebe que seu pneu dianteiro furou. Ele começa a rezar e desce pra trocar o pneu. Seu estepe está bem velho e com muito esforço e com seu macaco velho ele consegue depois de quase uma hora trocar o pneu do carro. Suado e com medo ele coloca o pneu furado e planeja já passar por um borracharia pra arrumar o pneu na estrada. Seguiu devagar até a fazenda pra ver se avistava alguma aberta. Nada!

Lá pelas 18 horas, depois dos atropelos, ele chega na fazenda. Faz a entrega. O fazendeiro lhe paga a quantia devida e convida pra ficar. Ele agradece e diz que precisa chegar logo em casa. Era sexta-feira 13 e ele nem deveria ter saído. Na saída o fazendeiro ainda brinca com ele:
- Joaquim, cuidado com o lobisomen, homem! - Dá uma gargalhada e vai pra dentro da casa grande.

Joaquim não acha graça nenhuma naquilo. Na estradinha de terra, tudo deserto. A noite já caindo, a lua cheia, bonita, dá o ar da graça. E ele arrepia-se. Neste mesmo instante, outro barulho vindo lá de fora! "Meu Senhor Jesus", pensou na hora. "Outro pneu. Tudo menos isso!"

Era mesmo. Agora estava perdido. Há uma hora da fazenda e a uma hora de casa. Isso de carro. Ele não sabia se descia ou se ficava encolhido no carro até amanhecer. Não! Precisava achar alguém. A estrada principal estava mais ou menos perto. Iria tentar uma carona. Saiu do carro. E começou a caminhada. O tempo passa. Ele, a lanterna, a trança de alho na mão, os amuletos todos e as rezas na cabeça. Qualquer barulho era um aperreio na cabeça de Joaquim.

Lá pelas tantas ele sente uma dor aguda na cabeça. Cai no chão. Desmaia. Nos segundos que antecederam ao desmaio ele ainda pensou: "Meu Padim Ciço, não me deixe morrer!". Ele não deixou.

Não sabe como ele amanhece o dia na porta de casa, com as roupas rasgadas, sujo de barro e com manchas de sangue de animal no corpo. Teria sido atacado por algum bicho. Mas não tinha ferimentos. O sangue não era dele, com certeza. Procurou a caminhonete. Não achou. Como ele tinha chegado aí, a pé e como ele acordou do desmaio sem se lembrar de nada?

Abriu o comércio dele no sábado. Cismado. O primeiro cliente chega. Seu Antonio. E já chega com notícia fresca.

- Joaquim do céu! Ainda bem que tu fica em casa em sexta-feira 13. Acredita que teve uma onda de ataque de alguma fera ontem pela noite. A danada da fera levou umas 3 ovelha de Zé de Lino e uns 4 bodes de Afonso de Belarmino. Sem contar que quase atacou a filha de um deles. A conversa que anda por aí é que foi Lobisomem. Tu acredita nisso?

Joaquim baixa os olhos. Sabe bem por que evita sair de casa nestas noites e apenas diz:

- Isso é besteira desse povo. E Lobisomem lá existe, rapaz!
...
CARPE DIEM

Um comentário:

Alê disse...

Lua quase cheia,

Sexta 13,

Vento lá fora,

Rsrs,


Perfeito!

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