quinta-feira, 3 de março de 2011

Pais e Filhos - companheiros de jornada


Pensar que uma vida se origina de outras duas pessoas é um acontecimento mágico. Exatamente assim. Para que a vida se faça é necessário que duas pessoas estejam dispostas para que uma terceira desfrute desse dom que é viver.

As relações entre pais e filhos começam nesta decisão. Por mais que um filho não tenha sido planejado, o ato que o gerou, mesmo que acidentalmente, aconteceu somente por que duas pessoas se dispuseram a vivenciar aquele momento.

Meses de espera, cuidados, dúvidas, medos, ansiedade etc. Cada dia que passa o momento se torna inevitável e todas as sensações multiplicam-se dentro dos pais daquele filho que está para chegar. 
...
Chega o grande dia. Como será ele ou ela? Correrá tudo bem? Com quem parecerá? A frase que impera no coração de ambos: "O importante é que venha com saúde."

Os filhos nascem de suas mães. Vale lembrar que o ser humano, de todos que habitam na terra, são os mais dependentes dos pais, por mais tempo. Meses de dependência total. Anos de dependência em alto nível. Tempos úteis para formar laços. Para fortalecer laços.

Quanto mais avançamos no tempo, mais frágeis tornam-se essas relações e o interessante é que a dependência aumenta a medida que as relações se enfraquecem. Talvez por que na época em que as relações eram estreitas, os filhos seguiam mais seus pais. Estes eram mais ouvidos, mesmo quando discordavam de suas palavras.

A medida que os filhos buscam mais cedo, seguirem sozinhos, ainda imaturos, a tendência é que se tornem cidadãos incompletos, que muitas vezes esquecem o valor das palavras daqueles que lhe deram o direito à vida. Que os conduziram até onde lhes foi permitido.

Especialmente para quem está hoje com mais de 40 ou 50 anos. Lembre-se do dia em que você questionou seus pais. Quebrou alguma regra. Lembre do dia em que seu pai ou sua mãe lhe pediu pra sentar e ouvir o que tinha pra lhe falar. Talvez uma bronca. Talvez um conselho. Sinceramente, qual foi sua atitude?

Nem precisa responder, por que a resposta é evidente para nós desta faixa etária. Você calou e ouviu. Talvez você nem tenha concordado. Talvez você tenha ficado revoltado internamente. Mas você silenciou, ouviu e tentou colocar em prática o que lhe foi dito. Era assim, ser filho antes destes tempos atuais. Havia mais que respeito. Havia reverência por aqueles que davam um duro danado para nos manter íntegros e com melhores condições de vida do que eles próprios. Nossos pais, podiam ser bravos, ranzinzas, teimosos, mas no fundo eram os nossos heróis.

Sem generalizações e sem extremismos. Por que existem sim, exceções. Os tempos são outros. Nós resolvemos fazer tudo melhor. Novos métodos de criação. Proximidade no lugar de posicionamento. Amizade no lugar de liderança firme. Nivelamos por baixo, como se diz na gíria futebolística, quando um time com maior qualidade técnica joga tão mal quanto aquele que tem menor qualidade.

Pensamos conosco que seria tão complicado fazê-los entender que a nossa experiência contava muito. "Vamos deixar de ser arrogantes. Eles podem ter opiniões e seguirem como quiserem. Quem somos nós? Donos da verdade?" 

Pois éramos. Abrimos mão de um direito que tínhamos. O direito de formar os nossos filhos adequadamente. Abrimos mão de formarmos cidadãos que deveriam respeitar os mais velhos, as mulheres, as pessoas com algum tipo de limitação, a natureza, a sociedade, o direito do próximo. 

Ao invés disto preferimos que a falsa liberdade imperasse (sim, liberdade sem informação e responsabilidade, é falsa) e desta forma somos pais de cidadãos que se julgam superiores a tudo. Superiores a nós mesmos, que lhes demos a vida. Criamos pessoas que tripudiam em tristezas alheias, que desconhecem palavras como "por favor", "obrigado", "sinto muito", "desculpe-me". Pessoas que chamam seus pais de você e pelos seus nomes próprios.

"Você não viu que a Vanda não chegou, Júlio?!" A tal da Vanda no caso é mãe da menina. Júlio é o pai.

Claro que não tem nada demais os filhos tratarem seus pais pelos nomes e por você. Tem a ver a maneira como isso soa em muitas casas. Como se desdobra essa mudança pequena nos tratamentos familiares.

Nossos pais estavam tão errados? Éramos filhos tão subservientes assim?  Pensemos nisso.

Algo nos diz que está na hora de sermos realmente pais. E de nossos filhos assumirem seus postos: De filhos.

CARPE DIEM 

Um comentário:

Ana disse...

Samuka!!!

Este texto mto me fez pensar - em vários pontos, por várias vezes, em várias coisas.

Primeiramente, o sentimento de gerar uma vida é impagável, mágico, como vc mesmo descreveu. Depois vem o peso da responsabilidade da criação certa ou errada, a cobrança social e familiar. Por fim, o "dever cumprido". Será que criei um mostro um um herói.

Faltam 12 dias para minha princesa chegar neste mundo ("tenebroso") e eu já faço planos sobre sua criação. Quero que ela peça "bença" para os avós, que respeite os tios, seja amiga dos primos, ame os coleguinhas da escolhinha, quando tiver na hora, saiba se devender mas não se apresse em acusar. Nossa, às vezes dá um frio na barriga e tenho, sim, medo de criar apenas mais uma criança para esse planeta ao invés de criar um cidadã respeitável e respeitosa.

Esse frio na barriga chega a ser motivacional, gerando forças para eu não desista de criar minha filha de forma digna, leal e graciosa!

Parabéns por mais um texto brilhante e totalmente atual!

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