terça-feira, 10 de novembro de 2009

Vergonha (ou quando o tiro sai pela culatra...)




Houve um tempo em que os faltosos (criminosos) eram levados à exposição pública e apedrejados por seus "juízes" (leia-se, todos os demais do povoado). Era assim mesmo. Eles matavam o seu semelhante a pedradas. As vítimas destes julgamentos geralmente eram mulheres, devido seus desvios de conduta (?).
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Em alguns países julgam-se as mulheres que traem seus maridos ou são abusadas e engravidam. Ela pode ser apedrejada também, porém uma das penas comum é o estupro coletivo, por exemplo.
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Violação do ser.
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Estamos no ano de 2009. Século XXI. Brasil. País de regime democrático. Em uma universidade, localizada numa das maiores metrópoles do mundo.
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Uma aluna é julgada ao apedrejamento verbal e tecnológico. Sim. As pedras foram substituidas, por insultos, flashes de celulares e camêras fotográficas.
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Imagine você ter à sua volta cerca de 700 colegas(?) bradando os insultos mais baixos, com suas câmeras e celulares em punho, tentando arrombarem portas, apenas por que você estava "provocante"?
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Imagine a tal universidade sendo pressionada por parte destes mesmos 700 "animais irracionais" que lá estudam(?) a expulsarem a tal aluna indecorosa(?), pois a mesma pode sujar o nome(?) da tal universade e prejudicar a formação e a carreira destes futuros profissionais(?).
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Eis aqui varios tiros saindo pela culatra:

  • Tiro 1: A tal universidade é particular e claro que precisa se manter economicamente e entre posicionar-se contra os quase 700 alunos e uma aluna que se vestiu de maneira inadequada(?) (segundo a opinião da tal universidade) ela opta pelo caminho mais simples. Pune a moça e dessa maneira tudo fica bem. Ledo engano!
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  • Tiro 2: Por outro lado, a menina que resolve usar tais roupas inadequadas(?) tem a intenção de provocar, de fazer uma brincadeira, se de fato ocorreu o que dizem que ocorreu, claro. Ela perde o controle da situação. Se desespera e percebe onde tudo aquilo foi parar. Ela está errada por usar esta ou aquela roupa? Respondo eu. Não!
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  • Tiro 3: Os alunos(?) que começaram o tumulto no fundo foram inconsequentes e com certeza jamais imaginaram que tal atitude tomasse tal proporção. Certamente não foi algo premeditado e a brincadeira, virou provocação, que virou agressão, que virou bárbarie.
Em relação a Universidade, ela deveria saber que quase sempre, quando optamos pelo caminho mais fácil sempre temos consequencias inesperadas. Isto é um fato. Sinceramente, essa "empresa" está muito mal servida de executivos "de decisão". Ou estava, por que provavelmente alguns perderam seus postos depois deste infeliz incidente.
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O mais incrível que não estamos falando aqui de um ambiente "bruto". Estamos falando de uma universidade. Centro de cultura, inclusão social, de desenvolvimento de pessoas. E pensem comigo. Se a direção de uma universidade toma tal atitude e o que podemos esperar de seus alunos? Observem que, pelo menos até agora, nada foi sequer noticiado contra os alunos que humilharam um ser humano. Nenhuma apuração. Nada. Remendaram a situação, revogando a expulsão da moça. Lamentável e vergonhoso.
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Quanto a moça, eu enxergo muito mais com uma questão cultural do que moral. É claro que cada um pode se vestir como quiser. Isto nem está em discussão. O fato é que existem convenções simples. Imagine que essa moça trabalhasse numa empresa e a direção da empresa a orientasse que tais vestimentas não eram adequadas ao cargo que ela ocupasse. Como ela se comportaria? E isso não tem nada  a ver com preconceito. Tem a ver com conduta e posição da empresa. Ou se ela fosse convidada para uma festa de casamento ou de gala, vestiria-se da mesma forma?
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A questão aqui nem é a moça, muito menos o que ela veste ou deixa de vestir. É o quanto as instituições estão desacreditadas e banalizadas. Afinal, são menos escandalosos(?) que essa moça os tais 700 alunos que de maneira vergonhasa e covarde a humilharam. Cada um destes 700 alunos deveriam refletir sobre o quanto eles podem esperar uns dos outros. O mais incrível é que no meio dessa "galera" tinham meninas, vestidas de minissaias participando do evento de "apedrejamento digital", mais inflamadas que os meninos.
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Devemos muitos destes acontecimento a essa cultura do sucesso fácil chamado reality show. Vemos mulheres e homens agindo de maneira vulgar em novelas brasileiras, filmes americanos, seriados, comerciais de TV, etc.
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É o sucesso fácil. É a banalização do corpo humano. É a transformação de uma pessoa em um objeto de desejo. Tudo isso faz com que uma moça aja dessa maneira, que uma massa se comporte como animais e que uma universidade se comporte como a "mãe inquisidora" da idade média.
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Não se pode generalizar. Agora, que tipo de profissionais essa universidade forma? Quais cidadãos ela entrega a sociedade? Algo me diz que muita coisa, numa empresa desta precisa ser revisto. A começar pelo respeito e conduta moral de sua direção para com seus alunos.
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Algo me diz que muito precisa ser feito em relação a estes tais alunos, que participam de um movimento como este. Falta muito discernimento a estes jovens. Muito mesmo.
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Pois é! As vezes acontece isso mesmo. O tiro sai pela culatra.
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Essa universidade sentiu isso na pele. SInto pelo fundador, pelo reitor atual, pelos alunos decentes, por essa moça, pelas familias destes alunos desequilibrados e alguns donos da verdade, por estes profissionais da universidade "cheios de pudor(?)" e desqualificados que orientam certas decisões.
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Jamais esta empresa será a mesma. Jamais estes alunos serão os mesmos. Hora de refletir e humildemente se redimir. Resignar-se não é covardia e sim encarar o que recebemos com dignidade.

Ressalto que ninguém julga ninguém e a intenção deste texto é simplesmente levar-nos a reflexão sobre os caminhos que estamos dando a nossa evolução. Que legado estamos deixando aos nossos jovens?


CARPE DIEM

2 comentários:

Helen disse...

Esse foi um dos maiores absurdos que eu já vi acontecer. Mesmo que a moça estivesse com uma roupa realmente vulgar, não justificaria os insultos que ela recebeu, afinal de contas não é a roupa que a gente veste que define nosso caráter.
Horrível.
Enfim...

blogdomacagnan disse...

"Quem quer respeito, saiba respeitar". Vamos combinar uma coisa, a estudante ultrapassou os limites da decência. Digam o que quiserem de mim mas a estudante errou ao trajar tal vestimenta. Roupa pode não definir o caráter da pessoa mas não é o que MUITOS pensam por aí. Tal fato se comprova pela atitude que os(as) demais universitários(as) tiveram. O que também é entristecedor, pois demonstra uma séria e crítica falta de caráter próprio, capacidade de discernimento e de não se deixar levar pelo que os outros estão fazendo. Pela atitude, os universitários envolvidos neste fato deram uma prova mais que concreta do fenômeno "Maria vai com as outras". Sim, pois a grande maioria simplesmente repetiu o ato iniciado por uns poucos. E se tivessem que tomar essa atitude individualmente, sem ter o grupo para respaldar suas ações? Será que seriam capazes? Ou simplesmente se calariam e limitariam a olhar? E a estudante, com que propósito fez o que fez? Será que não tinha noção de como portar-se perante outras pessoas?
Não queiram me justificar o que ela fez. Se isso for normal, não estranharei daqui a algum tempo alguém aparecer nu em plena sala de aula como se fosse algo mais natural do mundo. Erraram todos nesta história: a estudante por não se dar ao respeito e os demais universitários pela reação coletiva acéfala. Você contrataria um profissional assim se tivesse uma empresa? Eu não. Sabe por quê?
Profissional que não tem caráter próprio é facilmente influenciado pelos "espertinhos" e se transforma em massa de manobra dos mesmos. E isso mais cedo ou mais tarde se volta contra você, quando esses espertinhos se sentirem insatisfeitos e usarem os outros a seu favor. E quanto à estudante; você contrataria uma executiva com esse tipo de comportamento? Eu não, por motivos óbvios: como ficaria a imagem da empresa representada daquela maneira?
Outros dirão que isso é apenas uma fase, uma brincadeira. Ora, se isso é uma brincadeira, o que esperar daqueles a quem será confiada a responsabilidade de um empreendimento seja qual for? Se não se leva a sério o que se pretende fazer desde o início, que resultado esperar?

Um abraço do Macagnan! Perdoe-me pela rispidez deste meu desabafo.

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