domingo, 2 de novembro de 2008

Coisas que aconteceram...(ou histórias de um quadro)


Este quadro, logo acima, tem uma história. Pelo menos para mim e para o pintor sim. O nome do pintor é Robson. Conheci-o numa feira de artesanato.

Vi esse quadro e me apaixonei. Ele, o quadro, assim como eu, temos algo em comum, a alma sertaneja. O lirismo da poesia do sertão castigado pela seca. Amor à primeira vista.

Robson teve a inspiração em 1985. E o quadro veio parar em minhas mãos em 1.998. Ou seja, há dez anos atrás! Ah! Como isso aconteceu? Histórias!

Naquele sábado de sol, tinha ido até a feira de artesanato, com a intenção de encomendar uma pintura que retratasse minha terra. Queria um lavrador, depois de um dia de trabalho, orgulhoso de seu esforço e de suas origens. E desse pedido nasceu esse quadro reproduzido a seguir, que eu chamo de "Lavrador Sertanejo":

E o outro, como se chama? Você deve estar se perguntando. Bem, ao outro demos o nome de "O Exôdo". Agora vamos ao que interessa: Como esse quadro veio parar em minhas mãos.

Fiquei apaixonado, como disse. E escrevi uma história rimada para o mesmo. O que chamamos na minha terra, das tradições dos cordéis e dos repentistas, de Mote decassílabo.

Se trata de uma poesia, onde as duas estrofes finais são sempre as mesmas ou próximas do "tema ou mote". Cada estrofe é composta por 10 versos e com 10 sílabas (sílaba de poesia se chama métrica)
...
No dia de buscar meu quadro, entreguei o texto (poesia) para o Robson.
Ele emocionado me disse:
-Obrigado pelo presente! Agora eu gostaria de retribuir a homenagem. Leve de presente a razão de sua inspiração. O quadro é seu. Sei que estará bem cuidado.
...
Nos emocionamos juntos! E trocamos as artes. E foi assim que esse quadro veio parar nas minhas mãos.
...
Vamos ao poema sertanejo. Aqui, há de se observar mais um ponto: a linguagem. Ela é caracterizada, pelo jeito e sotaque do nordestino simples e que sofre (ainda!) com a seca, em lugares esquecidos por muitos homens e jamais esquecido por Deus!

Mote: Meu moleque sofrendo, o meu burrico
E meu choro queimando no sertão

"Pobi" eu e meu "véio", a gente era
Mais "cumê" "prus" pequeno sempre tinha
Um pedaço de bode ou uma galinha
Tava bom, pois riqueza num se espera
Uma terra, meu Deus, ah! Quem "mim" dera!
"Padim Ciço" "mim" ajude! Só quero um chão
Prá prantá o meu "mío" e o meu feijão
Só que hoje nem sei aonde eu fico
Meu moleque sofrendo, meu burrico
E o meu choro queimando no sertão
...
Desde cedo, meu "véi" já ensinava
Os moleque a "tirá" o seu sustento
Prá preguiça, ele sempre tava atento
Quando alguém se escorava, ele brigava
E dizia que ajuda, Deus só dava
Prás "pessoa" que "alembrava" dos "irmão"
Entristecia com os que tinha "ambicião"
Se "alembrando" de João, minha "dô" estico
Meu moleque sofrendo, meu burrico
E o meu choro queimando no sertão
...
Nem falei prá "ocêis" dos meus menino
Tinha Pêdo, Chiquinha e o José
Tico, Paulo, Malaquias e Mané
Joaninha, Creusinha e Zé Lino
Esqueci de Betinho, um pequenino
Mas "tamém" morreu logo, inda pagão
Deu uma febre no "bichim", um "vremeião"
O destino dos "ôtro", "despois" explico
Meu moleque sofrendo, meu burrico
E o meu choro queimando no sertão
...
O meu '" véi"trabaiava certo dia
Quando uma "dô" nu seu peito "atacô"
Os seu "zóio" revirava e ele "ficô"
Todo roxo de "dô" e só tremia
De repente "parô", nem "si" mexia
O "dotô mim falô": - É coração!
E meu Des "mim" levava o meu João
E pensei, e agora, "cumo" "que'u" fico
Meus "moleque" sofrendo, e um burrico
Nosso choro queimando no sertão
...
Entra ano e sai ano, a "dô" aumenta
E "di" fome, vai "Pêdo" e vai Chiquinha
Os pulmão "tamém" leva minha Creusinha
Joaninha fraquinha num se aguenta
Malaquias apanha "d'uns" cinquenta
"Enfrentô" "Coroné" Sebastião
"Encantô-se" pela "fia" do bodão
E aqui num se "ajunta" "pobi" e "rico"
Só "restô" uns "moleque" e um burrico
E um choro queimando no sertão
...
O meu "fio" José já foi s'imbora
Procurá seu destino em terra estranha
Cum a morte de Lino, a dô me apanha
No meu peito, essa dô, direto mora
Os meus "zói", cada dia, mais que chora
E Mané se meteu em confusão
N'outro dia, morreu a traição
A tocaia lhe "armô", um tal de Lico
Só "restô" um moleque e esse burrico
E o meu choro queimando no sertão
...
Muitos anos nessa terra me aguentei
Meu moleque ainda todo afoito
De idade, ele tinha bem uns oito
Essas coisas de idade eu nunca sei
"Prá ficá" em minhas terra eu lutei
Só que o banco num tinha coração
Eu chorei, e o meu "chôro" foi em vão
"C'umas" trouxa, sem rumo eu e meu Tico
É Meu moleque sofrendo, meu burrico
E o meu choro queimando no sertão
...
Bem, é isso. É diferente. Eu sei. Espero que gostem e façam uma viagem no quadro "O Exôdo".
...
A cultura nordestina é rica, repleta de histórias, contos rimados e personages fantásticos. Senti vontade de compartilhar um pouco de minhas origens, de meu mundo, do meu "cordel".
...
Ah! O que é mesmo cordel? Isso já é outra história, que conto outro dia, combinado?
...
Com carinho!
...
Boa semana e nos vemos por aqui, em breve, "com mais coisas acontecendo", mais prosa, mais versos, rimas e métricas!

2 comentários:

aninha disse...

por um instante , vi aquela família no sertão, passando apertos , nada além de dor ...mas a imagem nos leva a mundos q desconhecemos e a linguagem ,nem se fala , perfeita ...

mia disse...

Ô Sá, que coisa bonita!
Eu já conhecia a história, você já me contou, mas o quadro e o cordel...

Lindos!

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